Chuteiras sujas de tempo e saudade

Quando a bola rola, lembramos dos antigos craques e os vemos nos atuais jogadores

A cada Copa nosso coração entra em campo, bate na ponta das chuteiras
A cada Copa nosso coração entra em campo, bate na ponta das chuteiras Foto : Paulo Mendes com ajuda de IA

Lembro do dia 21 de junho de 1970, um domingo frio com chuva consistente pela manhã que depois amainou. Fomos escutar no rádio a final do México, de Brasil e Itália, o pai e eu, na casa do vizinho Orci Dal Forno. Foi ele, colorado, quem nos apresentou ao futebol. O pai nada entendia de futebol, mas acabou se tornando torcedor. Os dois vizinhos eram grandes amigos, um gauchão típico, tropeiro, e um descendente de imigrantes italianos, um “gringo”, duas culturas diferentes, mas se tornaram próximos, se respeitavam mutuamente. O Clécio, filho do seu Orci, era meu melhor amigo. Quando o Brasil fazia os gols, parávamos de jogar bola, corríamos para perto do rádio, ouvíamos um pouco e saíamos pulando, gritando, chutando a bola embarrada.

Seu Orci, apesar do sangue italiano, torceu muito para o Brasil. “Nasci aqui, sou brasileiro”, explicou. Seu José Mendes e ele nunca discutiam, comprovando que o respeito é fundamental nas relações entre as pessoas, nesses dias em que a tolerância anda escassa. Quando o jogo terminou, com uma jornada épica de nossos craques que aplicaram 4 a 1, fomos para casa ouvindo as explosões que o Clécio produzia numa lata de carbureto. A mãe, dona Mirica, nos esperava com o almoço pronto, pernil de porco assado no fogão a lenha, salada de maionese e guaraná em garrafa de 600 ml. Antes de sentar à mesa, o pai, que nunca demonstrava sentimentos, se emocionou. Caminhou até seu quarto, pegou o revólver, saiu resoluto para o pátio e atirou duas vezes para cima. Foram os únicos tiros que eu vi o pai dar na vida.

Em 1975, a televisão era a novidade na vizinhança. Mas dessa vez, vi o gol de Figueroa sobre o Cruzeiro na casa de outro vizinho, num pequeno televisor à bateria de caminhão. A imagem era em preto e branco, com chuvisco. Mas recordo da falta, a cruzada de Valdomiro para a área e a cabeçada do chileno para as redes. Ao terminar o jogo estava feliz pelo primeiro título do Colorado e, sem ter o que fazer, comecei a dar cambalhotas na grama, numa área em declive. No ano seguinte, escutei ao lado do pai, o bicampeonato em partida contra o Corinthians. Em 1979, contra o Vasco, quando o Inter foi tricampeão invicto, eu experimentava a fase de adolescente e o pai já estava doente. Envoltos em nossos problemas, pouco comemoramos.

Agora, estamos em outra Copa. Quantas já passamos, como já vibramos e já sofremos. Em 1982, em Santa Maria, vi uma freira chorando na rua logo depois que perdemos para a Itália. Foi uma decepção porque aquela seleção era formada só por craques, dava show. Tempo depois, em 1994, voltamos a levantar o caneco, quando já estava na Capital. E no ano de 2002, em que nasceu minha filha Paula, o Brasil voltou a triunfar. Era o Penta. Tivemos tantos fracassos, mas creio que o Brasil, que o jogador brasileiro, segue sendo uma referência no futebol.

Neste texto quero ser otimista, afinal somos do Brasil, somos verde e amarelo, soubemos batalhar e sofrer, temos samba no pé, temos molejo, garra, carregamos todas as cores de pele, imensa mistura de raças, de influências. Por isso, a cada Copa nosso coração entra em campo, bate na ponta das chuteiras. Quando a bola rola, lembramos dos antigos craques e os vemos nos atuais jogadores. E, juntos, vamos em busca de uma nova consagração. Nossas chuteiras estão sujas de tempo e saudade.

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