Diálogos

Marcelo Nova: “Eu queria demonstrar que era um fora da lei, que aquilo me incomodava”

Foto: Livia Lamana / Divulgação / CP Foto: Livia Lamana / Divulgação / CP


A primeira vez que escutei o Camisa de Vênus foi no longínquo 1983. A banda baiana estava lançando o disco homônimo e a faixa era "Passamos Por Isso", que tinha trechos assim: "Eles têm medo do que não entendem, eles gritaram: Isto não é música, é barulho, Vocês não vão a lugar nenhum com isso." / "Hmhmhmhmhm, seus otários! Nós atropelamos vocês! Nós passamos por isso." / Quiseram mudar nosso nome, Deixar tudo arrumadinho. Nos deram até a liberdade, De tocar Brasileirinho".
Foi como um tapa. Me pegou de jeito e logo eu estava tentando achar aquele disco em alguma loja de Porto Alegre. Foi difícil, muito difícil, mas consegui e logo havia decorado todas, todas as letras, desde "Metástase", "Bete Morreu", "Correndo Sem Parar" até "Meu Primo Zé". Em 1984, o grupo fez apresentação histórica no Auditório Araújo Vianna. E agora, mais de três décadas depois, o Camisa de Vênus está de volta à Capital, onde neste sábado faz show novamente no mesmo local, a partir das 21h. E o espetáculo será registrado em DVD. O Camisa de Vênus também está lançando um novo álbum de inéditas, intitulado "Dançando na Lua". Esta semana conversei com o líder da banda, Marcelo Nova.
Correio do Povo: Está conversando aqui com um fã teu desde 1982, quando escutei pela primeira vez “Controle Total”. Apenas 34 anos depois.
Marcelo Nova: Foi ontem.

CP: Sábado vocês fazem show aqui em Porto Alegre. Vão gravar o DVD. Neste DVD, o que entra? Será apenas Porto Alegre ou alguns outros lugares?
Marcelo Nova: Não, é um tiro só. O que acontecer na noite será registrado.

CP: A banda está afiada?
Marcelo Nova: A banda está ótima. Nunca esteve tão bem. Eu e o Robério somos os coroas da banda. E o Drake e o Leandro, que são os guitarristas, e o Célio, o batera, já estão totalmente integrados à sonoridade do Camisa. Começamos a fazer uma turnê o ano passado, depois de 20 anos de ausência, também estamos lançando um álbum de inéditas, chamado "Dançando na Lua".

CP: Por que não foi possível reunir a formação original?
Marcelo Nova: Como você mesmo disse, 36 anos depois, resolvi chamar o Robério. Hoje continuamos amigos, parceiros, com a mesma afinidade. Mas de 1980 para 2016 muita coisa acontece, é natural que ocorram transformações. Muita coisa muda, por que uma banda não mudaria?

CP: E os outros membros, que se apresentam também como Camisa de Vênus, o Gustavo Mullen e o Karl Hummel?
Marcelo Nova: É uma página virada. Não tem mais isso. Faz dois anos. É passado. O que importa é que estamos indo para Porto Alegre para apresentar um trabalho novo e gravar um DVD. E coisas do novo disco estarão presentes no show.

CP: Como surgiu o nome Camisa de Vênus?
Marcelo Nova: Foi uma ideia meio prosaica. Mostrar que estávamos inconformados… não… não… não… Quando chamei o Robério, coloquei para ele que não estava interessado em músicos, mas sim em ideias. Naquele momento éramos muito jovens. E estávamos sediados na Bahia, e não estávamos satisfeitos com o que se falava da Bahia. Excesso de glorificação, da beleza, da qualidade de vida, tudo era muito superlativo na minha visão. Então eu queria esculhambar com esta visão. Eu não pensava em ter uma carreira. Eu queria demonstrar que era um fora da lei, que aquilo me incomodava. Eu tinha amigos negros que não tinham nem onde defecar. E diziam Salvador, maravilha. Parecia trilha sonora de secretaria de turismo. Então tinha de mostrar um contraponto. Eu tinha de esculhambar com aquilo. Já que os baluartes da música baiana não faziam. E nossa primeira música "Controle Total", que tinha um verso onde dizia "Salvador, a cidade do axé, a cidade do horror". Eu fui o primeiro artista baiano a falar de sua cidade desta forma. Então o nome Camisa de Vênus surgiu quando estávamos ensaiando e as pessoas falavam "que coisa mais chata, incômoda". Então pensei no nome.

CP: Então vocês vão para a Som Livre com este nome.
Marcelo Nova: Teve um preço. Menos de três meses depois de o primeiro disco ser lançado, fui chamado para uma reunião. E queriam mudar o nome. A expressão Camisa de Vênus era incomodativa, atrapalhava a comercialização. Então aceitei a mudança e sugeri "Capa de Pica". Imagina a reação que provocou em senhores que presumem saber tudo e estão no poder. Fomos dispensados imediatamente da gravadora. Naquela época nos custou um ano e meio de sanduíches, morávamos oito pessoas em apartamento quarto e sala na Barata Ribeiro no Rio de Janeiro. Mas olhando para trás, vejo que aquele moleque Marcelo Nova foi corajoso. Se aquilo nos prejudicou por um lado, por outro mudou minha personalidade. Mostrou que não precisamos estar nos curvando a pessoas que muito pouco entendem de música. Vi na época e ainda hoje raríssimas exceções, vejo esta gente que dirige gravadora como verdureiros. Gente que não tem respeito pela música. Também não tem nenhum conhecimento da música. Gente de mentalidade fenícia. Gente que vai para a churrascaria discutir contrato. O que menos importa para eles é a música.

CP: Qual a relevância do Camisa do Vênus para a música brasileira?
Marcelo Nova: Você me diz. Eu apenas faço meu trabalho. Mas como nós não estamos atrelados a modismos. Temos público de 60 anos, 15 anos. Fãs que vão até com os avós. A banda é acompanhada de uma atemporalidade. Escrevo sobre questões que meu tataravô falava. Não há nada de novo nisso. Falo sobre poder, ódio, sobre conquistas. Questões vista desde que o mundo é mundo.

CP: Como você vê os fãs de ontem e hoje?
Marcelo Nova: O fã comprava o disco, não ouvia apenas aquela música, não comprou o “Batalhão de Estranhos” porque “Eu Não Matei Joana D"arc” tocava no rádio. Ele comprava o pacote todo. E hoje estamos lançando disco novo depois de 20 anos. Por quê? Porque queremos seguir em frente. Mas não sou maestro do baile da saudade, não gosto de nostalgia. Não me atenho ao passado. Por isso, várias músicas do novo disco estarão no show de sábado.

CP: Qual o grande hit da Bahia?
Marcelo Nova: “Silvia”, “Eu Não Matei Joana D"Arc”, “Hoje”, “My Way”. Me dá satisfação saber que meu trabalho é reconhecido.

CP: Hoje em dia, o que você escuta? Fica no passado ou procura novidades?
Marcelo Nova: Não, não vasculho. Não busco nada. Se é bom, vai chegar a mim.

CP: Como você vê o momento musical do Brasil?
Marcelo Nova: Não sei. Sou muito recluso. Nunca fui de balada, nem nos famigerados anos 1980. Não tenho facebook, whats app, e-mail. Eu detesto Bill Gates, sou fã de Graham Bell.

CP: O que tu recorda das apresentações em Porto Alegre?
Marcelo Nova: Porto Alegre foi uma descoberta para mim. Tocar pela primeira vez no Araújo Viana para sete mil pessoas e meses depois tocar para 16 mil pessoas no Gigantinho. Fomos procurados por empresários, que merda é essa de Camisa de Vênus. Ninguém sabia o que era. E foram procurar saber o que éramos. E quando ficaram sabendo, nos contrataram para 25 shows. O que nos deu a possibilidade de colocarmos os pés no chão. E planejarmos uma sequência de trabalho, pois até ali só pensávamos no dia a dia. E interessante, quem nos levou a Porto Alegre foi um garoto, André Sittoni, que era fã e que nos levou para o Araújo e o Gigantinho. E não tinha experiência nenhuma. E hoje, 32 anos depois, é ele que está dirigindo nosso DVD.

CP: A banda já sofreu preconceito por vir da Bahia? Por que tocam rock?
Marcelo Nova: Nunca me incomodou. Muita gente nem sabe que somos de Salvador, pensam que somos de São Paulo.

CP: Que lembranças tu tens do Raul Seixas?
Marcelo Nova: Raul Seixas foi o primeiro artista brasileiro com quem me identifiquei. Antes era aquela coisa do "Índia, seus cabelos", "O Ébrio", "O Barquinho", aquela coisa engessada. Então eu não escutava nada de português. Escutava Hendrix, Dylan, Led Zeppelin, era o que eu escutava lá por 1972, 73. O que eu ouvia do Brasil achava que era ficção científica. Quando ouvi Raul, percebi que havia um cara que pensava de certa forma como eu também pensava. Ele lhe dava a oportunidade de você se identificar. E depois, por obra do acaso, do destino, em 1983, ele quis me conhecer. Foi até o Circo Voador. E foi e se apresentou. Eu o convidei para subir no palco e fazer uma jam. Ele aceitou. E aquilo se transformou em amizade, desembocando anos depois no disco “Panela do Diabo”.

CP: Você sempre foi muito politizado. Como vê o atual momento político brasileiro?
Marcelo Nova: Não é preciso ser inteligente para ver que em 70 anos percorremos todas as linhas ideológicas, da extrema direita com os militares, com a esquerda com o Lula, com o neoliberalismo do Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, passamos por todas. E o país continua o mesmo, com as mesmas carências, necessidades, características. Eu tenho a consciência de que vou morrer e o Brasil não vai mudar.

Por Chico Izidro