Diálogos

Raquel Recuero: "Ódio político nas redes já gera consequências offline"

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As eleições de 2014 potencializaram as opiniões políticas da grande maioria das pessoas no Brasil. Por um lado, o debate pode se tornar positivo quando se conhece quem pensa diferente. Pelo outro, há quem acredita ser o dono da razão e que os demais estão errados. O que pode resultar em uma grande antipatia social, quando não se torna uma agressão radical. A professora e pesquisadora de mídias sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Raquel Recuero tenta explicar como a polarização do ódio político tomou conta não apenas nas redes sociais, mas também gerando consequências na vida real.

Correio do Povo: O que você acha desta polarização do discurso de ódio que acontece nas redes sociais, das pessoas reafirmando o seu posicionamento político e atacando a opinião contrária?
Raquel Recuero: Penso que já víamos indícios dessa polarização em nosso trabalho desde 2014, mas que se acentuaram muito desde o final de 2015, com um aumento da agressividade nas postagens. É evidentemente uma coisa negativa, na medida em que afasta as pessoas e faz com que se criem "bolhas" de concordância e se silencie os discursos contrários, simplesmente porque as pessoas se sentem atingidas. Esse silenciamento é também separador, na medida em que cria mais animosidade entre as pessoas, o que aumenta o ódio contra o "outro lado".

CP: Pode-se dizer que apenas um lado ataca mais que o outro, (entre os que defendem o governo Dilma e a oposição) o que você tem notado ultimamente?
Raquel Recuero: Não, vemos uma polarização, ou seja, discursos contra e pró governo na mesma intensidade sendo compartilhados, ambos com diferentes graus de agressividade ao discurso contrário.

CP: Você acha que este "ódio político" pode aumentar e gerar consequências nas ruas? Isto poderia ser exemplificado como os casos no bar Odeon (pessoas agrediram funcionários e clientes alegando serem defensores do PT) ou em situações que não haja violência, mas discriminação como no episódio da pediatra que recusou atender um filho de uma militante do PT.
Raquel Recuero: Creio que já está gerando consequências offline. A agressividade online não fica necessariamente no Facebook ou nos sites de rede social até porque online e offline não são ambientes completamente separados. Se você se sente ofendido online, essa ofensa permanece com você, altera sua percepção de mundo e em algum momento pode ser exacerbada. O que tenho observado é que no ambiente online, talvez pelas suas características de mediação, parece reduzir as barreiras do "dizer"no sentido de que as pessoas dizem coisas e assumem uma postura que não fariam no ambiente offline, na interação face a face. Há características complicadores, como a presença de audiências invisíveis (pessoas que não imaginadas como receptoras do discurso e que o recebem como se fosse pra si), a publicização do que é dito (e que muitas vezes é percebido como na esfera privada) etc.

Por exemplo, há coisas que poderiam ser consideradas agressivas sobre seus amigos/conhecidos que você comenta na esfera privada, entre amigos de confiança, mas não na frente de outras pessoas. No Facebook não há essa separação de modo claro e as pessoas tendem a agir diante de audiências imaginadas que não correspondem necessariamente à audiência real, o que causa impacto negativo. Além disso, a impossibilidade do feedback imediato (ou seja, da possibilidade de você "ver" que aquilo que diz está ofendendo alguém ou perceber ruído na sua mensagem) também complica essas interações.

Claro, nesses casos específicos nos quais você falou há um forte papel da narrativa da mídia junto, que potencializa a reação das pessoas.

CP: Ter um número maior de seguidores representa mais respaldo junto ao público, ou seja, mais poder de persuasão?
Raquel Recuero: Não necessariamente. Há diferentes motivações para "seguir" alguém, inclusive aquela de discordar. Quanto mais seguidores, maior sua audiência "potencial", ou seja, a quantidade de pessoas que pode receber sua mensagem. Mas devido a algoritmos e outros filtros, isso não quer dizer que toda essa audiência seja atingida. Há muitos bots também e em termos de polarização, há muitos que permanecem ali apenas para contradizer o que é dito.

CP: O que pode ser feito para tentar amenizar e diminuir este ódio na internet? E se é possível retirar uma pessoa dentro da "bolha" que acaba criando, ao filtrar apenas assuntos que lhe interessam na internet.
Raquel Recuero: Olha, eu tenho para mim que é preciso educar as pessoas para compreender as implicações de suas atitudes online. Isso porque como você não vê o efeito imediato de suas palavras, muitas vezes a coisa parece inócua, mas está atingindo outros que você não vê. As pessoas em geral veem os sites de rede social como um bar onde encontram-se com conhecidos que sabem quem são, enquanto na verdade, estão muito mais para um palco com uma audiência gigante da qual você só vê as primeiras filas, onde chega a luz. E a gente vê isso não apenas nessas questões de polarização política, mas igualmente no cotidiano, na publicação de informações pessoais (fotos da família, de bens, informações de endereço, coisas da vida privada).

Sobre a questão da bolha, ela é potencializada pelos algoritmos de relevância (como no Facebook) e é bem complicado sair dela. Há uma tendência à adoção desse tipo de algoritmo nas ferramentas, o que, na minha opinião é bastante danoso porque você acaba limitando as informações que alguém tem acesso pela filtragem de mecanismos não humanos, o que não necessariamente tem a ver com aquilo que você quer receber.

por Lou Cardoso