Alternativas ao dólar são cogitadas por países emergentes

Sistema de pagamento próprio e moeda do Brics estão em pauta

Moeda norte-americana assumiu a função de principal referência após 2ª Guerra
Moeda norte-americana assumiu a função de principal referência após 2ª Guerra Foto : Adriana Toffetti / Ato Press / Estadão Conteúdo / CP

O tarifaço dos Estados Unidos sobre as exportações brasileiras e de outros países reacendeu o debate sobre a dependência do dólar. Em meio a esse conflito comercial, duas propostas lideradas por países emergentes ganharam força: de um lado, um sistema de pagamentos para os Brics, de outro, a sugestão do Brasil de criação de uma moeda comum para as transações entre os membros do bloco econômico.

Embora as duas propostas caminhem para reduzir a dependência do dólar, operam por mecanismos distintos, ressalta o professor de economia da PUCRS Adalmir Marquetti. O sistema de pagamentos dos Brics criaria uma infraestrutura própria para transações entre os países-membros, dispensando o uso do dólar e do Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (SWIFT), que é atualmente o meio mais usado. “Essas transações poderiam ser feitas diretamente nas moedas nacionais, fortalecendo seus sistemas monetários e ampliando a autonomia do bloco frente às pressões dos Estados Unidos e de outras economias desenvolvidas.” Há várias alternativas ao SWIFT, entre elas, o Pix.

Já a moeda comum envolve a criação de uma nova unidade monetária. “Se adotada nos moldes do euro, substituiria as moedas nacionais e limitaria a autonomia de cada país para conduzir sua política monetária. Outra possibilidade seria uma moeda voltada apenas ao comércio internacional. Nesse caso, ela seria usada exclusivamente para as transações entre países do Brics, coexistindo com as moedas nacionais”, observa o professor.

Nos dois casos, haveria uma redução do papel do dólar no sistema internacional, o que representaria uma importante mudança desde a Conferência de Bretton Woods, após a Segunda Guerra Mundial, quando a moeda norte-americana assumiu a função de principal referência, reserva de valor e meio de pagamento global. “A criação de um sistema de pagamentos próprio já representaria um passo no redesenho do sistema monetário internacional; a criação de uma moeda comum teria ainda maior impacto nesse redesenho da ordem monetária global.”

Do ponto de vista político e econômico, na avaliação de Marquetti, as duas propostas evidenciam o maior peso dos Brics no cenário internacional e a redução relativa da importância dos países capitalistas desenvolvidos. “Esse é um ponto fundamental, o debate é sobre como as mudanças nas últimas décadas redefinem o papel dos países na economia e na política mundial. Os Estados Unidos estão há vários anos tentando barrar essa mudança. O (presidente Donald) Trump acelerou esse processo.”

Agora resta saber se reduzir a vulnerabilidade ao dólar trará mais vantagens ou desvantagens nas negociações. No longo prazo, o movimento pode ampliar a autonomia diante de sanções. Já no curto espaço de tempo, porém, há riscos políticos de retaliações, barreiras e tarifas mais altas.

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