A taxa básica de juros Selic vem especialmente movimentando o noticiário faz alguns dias, e nesta semana o assunto ganhou força por causa da ata sobre a reunião que baixou o juro na semana passada. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a Selic de 14,25% para 14% ao ano, e na ata divulgada na terça o documento sinalizava que não se faz a menor ideia quanto aos próximos passos para manter, cortar ou aumentar. Se fosse o caso de seguir diminuindo a Selic, a inflação teria que estar sob controle. Pois no mesmo dia que o Copom emitiu a ata, o IBGE informou a inflação oficial, o IPCA. Se fosse o caso de se analisar só essa estatística, seria possível pensar em redução gradual dos juros, porque depois de dois meses de inflação acima do limite da meta, que é de 4,50% no acumulado de 12 meses, o indicador de preços voltou a ficar abaixo desse patamar, em 4,44%.
Pela regra mais simples, inflação desacelerando permitiria mais cortes na Selic, porque se os preços caem e o IPCA não fica tão pressionado haveria possibilidade de juro mais baixo e crédito um pouco mais barato. Mas a questão é que não se sabe como os preços vão se comportar e o que acontece no mundo também traz impacto para cá. A guerra no Oriente Médio não se resolve, o trânsito de navios que carregam petróleo se complica e o combustível pode subir de preço no mundo todo. Combustível caro encarece o resto porque tudo depende de transporte. E tem outra: a última pesquisa do IPCA aqui no Brasil mostrou preços desacelerando no grupo dos alimentos, mas com o El Niño derrubando casas e lavouras em várias partes do planeta, um relatório da ONU já prevê que até o final do ano a tendência é o preço da comida pela hora da morte.
“Faz muito sentido que o Banco Central tenha deixado em aberto essa possibilidade. A ideia é justamente incorporar novas informações para que a partir disso essas estatísticas venham então a fundamentar a decisão quanto aos juros. Diante de muita incerteza é natural que não exista nenhum tipo de comprometimento a respeito de quais devem ser os próximos passos da política monetária”, explica Oscar Frank, economista-chefe da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre. Incerteza é o que não falta nesses tempos de mudança climática e guerra.
NA PRÁTICA
- E a vida fica como? Neste ano só teremos mais três reuniões, em setembro, novembro e dezembro, para que o Copom decida sobre o juro. Juro esse que reflete nos preços e na compra a crédito. O Boletim Focus, que traz previsões sobre a Selic, calcula 13,75% até dezembro, pouca coisa menos que os 14% atuais.
- Ao menos por ora há perda de força nos preços e os alimentos ajudam nisso. “O ponto é que temos ainda muitos desafios, porque quando a gente olha a expectativa para 2026 permanece acima de 5% (a inflação)”, diz Frank. Se os dados sobre preços são afetados por questões políticas e climáticas, o jeito é comparar cada produto no supermercado. Também vale olhar as pesquisas de Cesta Básica do Dieese no site. Outra dica é o indicador da Ufrgs neste endereço e o do Dieese neste aqui.
