Economia Simples

Queda no diesel deve ajudar na redução do preço dos alimentos, mas não imediatamente

Combustível é fundamental no transporte de cargas e de passageiros. Seu custo tem impacto direto no frete, que contribui para o custo dos produtos

Até chegar às bombas, valor é acrescido de impostos e margem de lucro das distribuidoras
Até chegar às bombas, valor é acrescido de impostos e margem de lucro das distribuidoras Foto : Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

Neste mês, a Petrobras cortou duas vezes o preço do diesel nas refinarias, somando R$ 0,29 o desconto por litro. A expectativa é que isso alivie a inflação, já que o combustível tem impacto direto no transporte de cargas e passageiros. Mas essa redução não chega de forma imediata, nem integral ao bolso do consumidor.

Na primeira quinzena de abril, o diesel S-10, mais utilizado no país, teve queda média de 1,36%, segundo o Panorama Veloe de Indicadores de Mobilidade. Isso representa uma redução de aproximadamente R$ 0,09 nas bombas. A média nacional teve um recuo para R$ 6,39 por cada litro, abaixo dos R$ 6,54 mostrados na apuração de fevereiro. Percentualmente, no Rio Grande do Sul, a queda foi maior, de 2,2%. Mesmo assim, a professora de Relações Internacionais e diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) , Ticiana Alvares, observa que a queda dos preços do produto nas refinarias não se verifica no mesmo ritmo nos postos.

Mas por que isso acontece?

A resposta está em uma cadeia de formação de preços um tanto quanto complexa. “Tem o preço dos impostos, do componente biodiesel, os tributos federais e estaduais, e a margem bruta de distribuição e revenda”, explica. Até o ano passado, essa margem era de cerca de 18%, dependendo da demanda sazonal.

Além disso, segundo Ticiana, a venda da BR Distribuidora — que antes pertencia à Petrobras — tirou da estatal parte do controle sobre a revenda dos combustíveis. “A BR funcionava como uma espécie de balizadora dos preços, o que ajudava a medir o impacto das reduções. Hoje, com essa cadeia mais descentralizada, muitas vezes o que ocorre é uma recomposição da margem de lucro do setor de distribuição e revenda.”

Brasil importa cerca de 30% do derivado

Mesmo com forte produção nacional de petróleo, o Brasil ainda importa cerca de 30% do diesel que consome. “Somos autossuficientes na produção de óleo e gás, mas não somos autossuficientes em derivados e a maior dependência que temos é do diesel”, diz Ticiana. Além disso, ela destaca a sazonalidade: “Nos períodos de safra agrícola, a procura aumenta muito, o que pressiona os preços.”

Influência do valor internacional

“O preço do barril do Brent está caindo, e o diesel lá fora também” destaca Ticiana, explicando que isso puxa o valor para baixo. Segundo ela, mesmo com o fim da política de paridade internacional de preços adotada pela Petrobras no passado, os valores praticados no mercado global ainda pesam bastante.

Na prática, como tudo isso afeta a inflação?

O diesel mais barato pode ajudar a conter a inflação porque influencia diretamente o custo do transporte de cargas, especialmente em um país com forte dependência do modal rodoviário. “Isso tem reflexo até no preço dos alimentos”, observa Ticiana Alvares.

Por enquanto, o impacto da queda do diesel nas bombas foi modesto, e há incertezas sobre como e quando as reduções nas refinarias chegarão, de fato, ao consumidor.

O cenário atual é favorável: com o preço global recuando e custos de produção brasileira caindo, é possível que os preços nas bombas sigam essa tendência — ainda que isso demore um certo tempo. Vamos observar!

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