Há um Século no CP

Comentário sobre a legalização do jogo do bicho (e uma homenagem)

Da edição de 26 de maio de 1926, quarta-feira, n. 122

O jogo do bicho foi proibido já em 1895 e é criminalizado por lei desde 1946
O jogo do bicho foi proibido já em 1895 e é criminalizado por lei desde 1946 Foto : CP Memória

“O Barão Drummond, de gloriosa memória, ainda não tem uma estátua, o que é uma grave injustiça que cumpre reparar. Como se sabe, foi aquele titular o inventor e criador, no Brasil, dessa instituição, sem par no mundo inteiro, o jogo do bicho, cuja influência na vida nacional é incontestável. É de história recente a crise política despertada por esse florescente ‘passatempo’, da qual resultou a demissão de um dos mais prestimosos auxiliares do governo, o sr. marechal Fontoura. A polícia do Rio sente-se, entretanto, impotente para matar o bicho. Surge agora como solução salvadora a ideia de regulamentar o apreciado joguinho, fazendo reverter a taxa respectiva em benefício da saúde pública. É uma transigência perfeitamente explicável do governo com os jogadores e, na opinião de um delegado auxiliar, o melhor meio de extinguir as transações de certas autoridades com os contraventores. A medida pode ser boa, mas há melhor: é bancar o jogo o próprio governo, criando um ministério especial para esse fim, cujo primeiro ato deverá ser reparar a injustiça até agora cometida com o barão, elevando-lhe a merecida estátua. Há por aí fora monumentos que seriam mais difíceis de justificar.”

O jogo do bicho foi inventado e promovido em 1892 por João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond. Fundador e proprietário do Jardim Zoológico de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, o barão conseguiu a aprovação do poder público para sorteios internos no zoológico, onde cada visitante recebia um papel com a imagem de um animal. Ao final do dia, após o sorteio, o detentor do bilhete com o animal correspondente recebia o prêmio.

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Governo popular?

“Já terminou, na secretaria do Senado, o trabalho de apuração da eleição presidencial [realizada em 1° de março de 1926]. Verifica-se pelo minucioso exame dos resultados do escrutínio que a votação não atingiu, para cada um dos candidatos à presidência e à vice-presidência, setecentos mil votos. A proporção não alcança a 2,5% [da população], apesar de vivermos no regime do governo do povo pelo povo. Bem sabemos que isso de governo popular é um eufemismo desmoralizado, sem a menor significação real. Quem põe e dispõe do País são os políticos e o povo só tem a serventia de ser regularmente tosquiado. Tudo isso é lugar-comum que nem vale a pena repetir. Como, porém, explicar esse formidável desinteresse de uma Nação inteira pelos seus próprios destinos, a ponto de não existirem, entre cada cem cidadãos, três, pelo menos, que julguem útil correr às urnas para ter no governo seus legítimos mandatários? Só há uma explicação possível: é o descrédito em que caiu entre nós, mais do que alhures, o regime eleitoral. Ninguém acredita na eficácia do voto e, por conseguinte, ninguém quer sacrificar um dia de trabalho, ou de pândega, para o exercício de uma função absolutamente inútil.”

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Censo

“Segundo a última mensagem do presidente da República, ficou inteiramente concluída pela Diretoria Geral de Estatística a apuração do censo demográfico do país realizado em 1920, tendo sido divulgados em resumo os principais característicos da população recenseada. Tomando para base do cálculo o crescimento geométrico no período compreendido entre os censos de 1900 a 1920, a população do Brasil deveria ter atingido, em 31 de dezembro de 1925, o total de 35.804.704 habitantes, assim distribuídos:


Unidade da Federação / População

Alagoas: 1.093.975

Amazonas: 401.974

Bahia: 3.771.169

Ceará: 1.486.654

Distrito Federal: 1.326.370

Espírito Santo: 564.682

Goiás: 618.227

Maranhão: 1.017.796

Mato Grosso: 301.163

Minas Gerais: 6.731.444

Pará: 1.219.226

Paraíba do Norte: 1.153.184

Paraná: 838.115

Pernambuco: 2.538.180

Piauí: 716.553

Rio de Janeiro: 1.796.076

Rio Grande do Norte: 644.501

Rio Grande do Sul: 2.597.542

Santa Catarina: 816.512

São Paulo: 15.550.928

Sergipe: 546.372

Território do Acre: 504.031

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O dia 26 de maio na história

  • 1805 Napoleão Bonaparte é coroado Rei da Itália em Milão.
  • 1923 A primeira edição da corrida automotiva 24 Horas de Le Mans é realizada na França.
  • 1927 O último Ford Modelo T sai da linha de montagem após a produção de 15.007.003 de unidades.
  • 1938 Nasce em Moscou a escritora e dramaturga russa Liudmila Petruchévskaia.
  • 1948 Nasce em Phoenix, Arizona, a cantora e compositora americana Steve Nicks, vocalista da banda Fleetwood Mac.
  • 1950 Fundado em Lyon, na França, o clube de futebol Olympique Lyonnais.
  • 1966 A Guiana Britânica adquire a independência, se tornando Guiana.
  • 1966 Nasce em Londres a atriz britânica Helena Bonham Carter.
  • 1967 Os Beatles lançam o icônico álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.
  • 1972 EUA e URSS assinam Tratado sobre Mísseis Antibalísticos, encerrado em 2002.
  • 1975 Nasce em New Jersey a cantora, compositora, rapper e produtora americana Lauryn Hill.
  • 1976 Morre em Freiburg o filósofo alemão Marin Heidegger.
  • 1981 O primeiro-ministro italiano Arnaldo Forlani e seu gabinete se demitem após escândalo sobre afiliação a loja maçônica clandestina considerada associação criminosa.
  • 1986 A Comunidade Europeia adota a bandeira azul com círculo de estrelas amarelas.
  • 1998 Um milhão de pessoas participam do primeiro “National Sorry Day” na Austrália, evento de reconciliação entre indígenas e não indígenas australianos.
  • 2020 Primeiros protestos pelo assassinato de George Floyd acontecem em Minneapolis, se espalhando na sequência por todos os EUA e ao redor do mundo.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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