Há um Século no CP

Entrevista com o ex-embaixador italiano no Brasil

A edição do dia 21 de maio de 1925, quinta-feira, edição n. 119, noticiava

O general Pietro Badoglio serviu como embaixador italiano no Brasil por pouco mais de um ano. Defendeu a imigração para o Brasil, mas caracterizou o fenômeno como meramente econômico, e não político ou diplomático: "os próprios emigrantes devem ser os que resolverão sobre as suas condições"
O general Pietro Badoglio serviu como embaixador italiano no Brasil por pouco mais de um ano. Defendeu a imigração para o Brasil, mas caracterizou o fenômeno como meramente econômico, e não político ou diplomático: "os próprios emigrantes devem ser os que resolverão sobre as suas condições" Foto : CP Memória

“O ‘Giornale d’Italia’ publica hoje uma entrevista que um dos seus redatores teve com o general Pietro Badoglio, ex-embaixador no Brasil e há pouco nomeado chefe do estado-maior do Exército italiano. Nessa entrevista, que é longa, o general Badoglio aborda as relações ítalo-brasileiras, através de seus aspectos principais.

As relações ítalo-brasileiras — Começou o ilustre entrevistado por declarar que sentiu profunda emoção pelas inúmeras manifestações de cordialidade recebidas dos homens políticos do Brasil, os quais demonstraram sempre grande simpatia pela Itália. Acrescentou o general Badoglio, depois de outras considerações, que recebeu os mais cativantes acolhimentos por parte das populações brasileiras que teve ocasião de visitar.

Rebelião paulista — Passa, em seguida, a ocupar-se da revolução estourada em 5 de julho de 1924, em S. Paulo. E, a esse respeito, disse que, dada a origem do movimento, com caráter de luta estritamente pessoal, não poderia senão aprovar a defesa do princípio de autoridade e do governo constituído, precisamente quando o Brasil procurava consolidar, estabilizar e reforçar o organismo do Estado, sob a influência do poder central. Nesse ponto, declarou o general Badoglio que todos os italianos tiveram conduta magnífica em face do conflito, não tendo nenhum deles participado da rebelião militar.

A viagem do herdeiro do trono italiano — O entrevistado prossegue nas suas declarações, referindo-se à recente viagem de Humberto de Savoia à América do Sul. Quanto à passagem do herdeiro do trono italiano pela capital do Estado da Bahia, disse s. ex., que Sua Alteza teve ali carinhoso acolhimento, tendo-lhe o povo baiano demonstrado, francamente, o calor dos sentimentos do Brasil para com a Itália. Enfatizou então o general Badoglio que a aproximação de sentimentos e relações entre os dois países poderia resultar num conhecimento recíproco e numa permuta ativa, econômica e intelectual, intensificando-se, principalmente, o serviço de informações das imprensas brasileira e italiana.

As grandes possibilidades do Brasil — Detendo-se, ainda, sobre as relações ítalo-brasileiras, o ex-embaixador no Rio de Janeiro disse que era necessário lembrar que se trata de um país possuidor de tesouros incalculáveis de matérias-primas, e de novas magníficas cidades cheias de vida nova, onde a produção italiana, intelectual como industrial, ainda não é suficientemente conhecida. De outra parte, frisou o general Badoglio, a Itália não utiliza, como deveria, esse enorme reservatório de matérias-primas. E expendeu a opinião de que uma melhor organização comercial, que se afirmasse com a mesma precisão num e noutro países, proporcionaria à sua pátria admirável saída para os seus produtos em geral.

A emigração italiana — O general Badoglio deteve-se, depois, na análise da emigração italiana, concluindo por ser ela um fenômeno econômico e não político ou diplomático, porque os próprios emigrantes devem ser os que resolverão sobre as suas condições, de acordo com suas necessidades e pendores. O principal, disse o novo chefe do estado-maior do Exército, é uma melhor organização, com todos os seus pontos capitais perfeitamente estudados, e o envio ao Brasil de verdadeiros especialistas, que irão valorizar a cultura e o gênio artístico italianos. Concluiu o entrevistado, dizendo: ‘O ambiente de sincera simpatia que os nossos enviados encontrarão no Brasil, é a melhor garantia das magníficas possibilidades para o futuro das relações entre os dois países.’”

A revisão constitucional
“‘A Noite’ ouviu o deputado Getúlio Vargas sobre a revisão da Constituição, o qual falou sobre a opinião de Júlio de Castilhos, Pinheiro Machado e Borges de Medeiros. Sobre o assunto — disse o entrevistado — o primeiro deixara a sua opinião em justificação de voto, como membro da Constituinte, dizendo que a base para o programa revisionista era a discriminação das rendas públicas; o senador Pinheiro Machado foi sempre contrário à revisão, por julgá-la inoportuna; e o sr. Borges de Medeiros, em dois documentos notáveis, discordou da revisão, não porque em princípio fosse contrário a essa medida, mas porque a ideia revisionista não só não era apoiada por nenhuma corrente política, como também não era apresentada por nenhum programa definido, enunciando e enumerando os pontos a rever. Mas, desde que a revisão aparece agora, sugerida pelo presidente da República, em sua mensagem passada, com um programa definido, com intuitos verdadeiramente patrióticos, o caso muda de figura — disse por fim o entrevistado.”

Questiúnculas políticas

“A propósito da sessão de ontem, da Câmara dos Deputados, o ‘Jornal do Brasil’ diz que o sr. Baptista Luzardo afirmava, rebatendo os argumentos do sr. Albuquerque Líbório, que a representação não representava no Congresso a vontade das urnas. Esta afirmativa provocou, como era natural, alvoroço geral no recinto. Todas as vozes se levantaram: havia descompassadas gesticulações e protestos por toda a parte. O barulho ameaçava abater as galerias, repletas de ouvintes. Mas, felizmente, nada de mau aconteceu. Ainda desta vez a Pátria não estava perdida... Finda a batalha de eloquência tribunícia, os contendores, alguns segundos depois, celebravam o armistício, com a maior naturalidade deste mundo: um armistício geral de paz sincera e franca. E o povo, que é o eleitor, cá fora, que leve a sério essas questiúnculas políticas…”

Liberdade de imprensa

“Não se compreende o interesse político que existe em manter suspensa a publicação do ‘Correio da Manhã’. Um dos primeiros atos do governo, logo após a revolução de S. Paulo, foi impedir a circulação do brilhante matutino, cujas oficinas se acham fechadas há vários meses. É positivo que a violência da medida governamental excedeu as necessidades do momento. O ‘Correio da Manhã’ sobressaiu sempre na imprensa brasileira pela veemência dos seus ataques, pela franqueza das suas opiniões, pelo ardor com que se lançava no combate. Talvez essas qualidades fossem julgadas inconvenientes à ordem pública e ao empenho do governo em reprimir a agitação que, há um ano quase, perturba a vida nacional, máxime tratando-se de um jornal que goza de amplo prestígio na opinião pública. Mas contra os excessos do ‘Correio da Manhã’ tinham os poderes públicos armas eficientes na lei da imprensa e no direito de censura, corolário do estado de sítio. No fechamento do grande diário, houve pois um excesso de autoridade que se não justifica. E menos ainda se justificam os esforços do procurador da República para invalidar o despacho do juiz que concedeu a manutenção de posse, que assegura ao ‘Correio da Manhã’ o direito de vida que lhe fora sonegado. Felizmente, o juiz Octávio Kelly recusou-se a atender ao pedido do procurador da República para reconsiderar o seu despacho, mantendo-o integralmente. Assim, cessará a situação singular de exceção em que se encontrava aquele importante órgão da imprensa.”

O dia 21 de maio na história

  • 1851 A escravidão é oficialmente abolida na Colômbia.
  • 1856 A cidade de Lawrence, no Kansas, fundada por colonos anti-escravidão de Massachusetts, é saqueada por colonos pró-escravidão.
  • 1864 Termina a Guerra Russo-Circassiana, em que a Rússia invade a região da Circássia, no Cáucaso, ao longo de um século.
  • 1864 As Ilhas Jônicas se integram oficialmente à Grécia.
  • 1871 Começa a Semana Sangrenta, a batalha final da Comuna de Paris: as forças francesas invadem a cidade, massacram cerca de 20 mil pessoas e retomam o controle da capital.
  • 1904 A FIFA, órgão máximo do futebol mundial, é fundada em Paris por seis associações nacionais (todas europeias).
  • 1911 Porfírio Diaz, presidente mexicano, e o revolucionário Francisco Madero assinam o Tratado de CIudad Juárez, encerrando hostilidades e concluindo a fase inicial da Revolução Mexicana.
  • 1946 O físico canadense Louis Slotin é fatalmente contaminado por radiação durante experimento do Projeto Manhattan com plutônio em Los Alamos, EUA.
  • 1969 “Rosariazo”: distúrbios são registrados em Rosário, Argentina, após a morte do estudante Luis Blanco, de 15 anos, em protesto.
  • 1972 A “Pietà”, de Michelangelo, é danificada em Roma pelo geólogo húngaro Lászlo Toth, considerado mentalmente perturbado.
  • 1979 Motins da Noite Branca: distúrbios em San Francisco ocorrem após a condenação por homicídio culposo do assassino do prefeito George Moscone e do ativista Harvey Milk.
  • 1991 O ex-primeiro-ministro indiano Rajiv Gandhi é assassinado em ataque suicida a bomba próximo a Madras.
  • 1991 Mengistu Haile Mariam, presidente da Etiópia socialista, foge do país, encerrando a Guerra Civil Etíope que durava 16 anos.
  • 1998 O presidente indonésio Suharto se demite após a morte de estudantes da Universidade Trisakti por forças de segurança e os protestos populares subsequentes.
  • 2006 Referendo na República de Montenegro decide por 55% pela independência do país da união com a Sérvia.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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