Há um Século no CP

O general italiano — de futuro grandioso — que se despede do Brasil

A edição do dia 12 de abril de 1925, domingo, edição n. 86, noticiava

O piemontês Pietro Badoglio foi um jovem militar ativo e entusiasta que se destacou durante a Primeira Guerra Mundial. Logo foi nomeado senador e se afastou da Itália tão logo Mussolini e os fascistas ascenderam ao poder. Seu "refúgio" foi o Brasil, permanecendo como embaixador no Rio de Janeiro entre 1924 e 1925. Chamado pelo regime de volta ao seu país, sua trajetória conheceria uma ascensão fulgurante. Recebeu o cargo (e o título) recém criado pelo Duce de "Marechal da Itália", comandou o poder colonial na África e liderou as forças armadas durante a Segunda Guerra, até ser nomeado primeiro-ministro nos estágios finais do conflito. Foi Badoglio quem assinou o armistício com o presidente americano Eisenhower, em Malta, em setembro de 1943, ocasião em que a Itália passava a lutar contra a Alemanha nazista. O velho militar encerrou sua vida pacificamente em sua vila natal
O piemontês Pietro Badoglio foi um jovem militar ativo e entusiasta que se destacou durante a Primeira Guerra Mundial. Logo foi nomeado senador e se afastou da Itália tão logo Mussolini e os fascistas ascenderam ao poder. Seu "refúgio" foi o Brasil, permanecendo como embaixador no Rio de Janeiro entre 1924 e 1925. Chamado pelo regime de volta ao seu país, sua trajetória conheceria uma ascensão fulgurante. Recebeu o cargo (e o título) recém criado pelo Duce de "Marechal da Itália", comandou o poder colonial na África e liderou as forças armadas durante a Segunda Guerra, até ser nomeado primeiro-ministro nos estágios finais do conflito. Foi Badoglio quem assinou o armistício com o presidente americano Eisenhower, em Malta, em setembro de 1943, ocasião em que a Itália passava a lutar contra a Alemanha nazista. O velho militar encerrou sua vida pacificamente em sua vila natal Foto : CP Memória

“A bordo do ‘Giulio Cesare’, deverá embarcar hoje à tarde de regresso para a sua pátria o general Pietro Badoglio, embaixador militar italiano junto ao governo do Brasil. Volta ele para a sua terra obedecendo a um chamado urgente que nesse sentido recebeu, sabendo-se que ali lhe será confiada missão de alta importância. Há até quem assevere que o general Badoglio vai ser nomeado chefe do Estado-Maior do exército italiano. O ilustre militar, durante a sua longa permanência de mais de um ano no Brasil, soube sempre se impor ao apreço e admiração não só de seus patrícios aqui residentes como de todas as autoridades brasileiras. Ao Estado de S. Paulo, onde é numerosíssima a colônia italiana, fez o general Badoglio diversas viagens, nas quais foi alvo sempre das maiores demonstrações de carinho. Lembramo-nos de ouvi-lo antes de sua partida. Encontramo-lo ontem à noite quando, rodeado de diversos amigos, saía do Jockey Club. Dissemos-lhe ao que íamos e o ilustre militar prontamente se pôs à nossa disposição, declarando-nos antes mesmo que o arguíssemos: ‘Vou satisfeitíssimo com o patriotismo e as obras dos italianos, que qualifico de formidáveis, principalmente em S. Paulo. Deixo pesaroso este grande país, onde só encontrei amizades, gentilezas e cavalheirismo. Mas sou soldado e tenho, pois, que obedecer aos meus superiores. Regresso por isso para a Itália, onde são precisos os meus serviços. Apesar, porém, de tudo isso, levo comigo para a Itália um grande desgosto: o de não ter podido passar uns meses entre os meus patrícios que, lá no extremo sul, no Rio Grande, trabalham para o Brasil e pela Itália’. E, rematando a palestra, disse-nos a sorrir o general Badoglio: ‘Olhe, quer prestar-me um favor? Dirija pelo seu jornal, em meu nome, a minha calorosa saudação e sentidas despedidas aos italianos do Rio Grande do Sul’.

“As altas autoridades da colônia italiana e nacionais estão se preparando para homenagear condignamente o general Pietro Badoglio, que partirá hoje à tarde no ‘Giulio Cesar’ para a Itália.

“O general Badoglio acaba de ir para bordo do ‘Giulio Cesare’, que o conduzirá a Gênova juntamente com o adido militar. O seu embarque esteve muito concorrido.”

O militar Pietro Badoglio (1871-1956) já exibia uma trajetória honrosa quando chegou ao Brasil aos 53 anos. Havia lutado na primeira guerra etíope em meados da década de 1890 e na ítalo-turca de 1911-12. Na Primeira Guerra, alcançou a patente de general. Após o conflito, foi nomeado senador, mas permaneceu no exército com atribuições especiais na Romênia e nos EUA. Com a ascensão do fascismo, em princípio se opôs a Mussolini; foi nomeado embaixador no Brasil por seu próprio pedido. Seu retorno à Itália o lançaria aos altíssimos escalões da hierarquia militar fascista. O cargo que assume em 1925 e preserva até a Segunda Guerra (Chefe do Estado Maior da Defesa) é instituído para recebê-lo. Nesse período se torna governador da Tripolitânia e Cirenaica, colônias italianas no norte da África, comanda na conquista da Etiópia (utilizando armas químicas e recebendo o título de vice-rei) e assina o Manifesto da Raça contra os judeus. Na Segunda Guerra desempenha papel de ponta, militar e politicamente. Em 1943 recebe do rei Vittorio Emanuele II a missão de formar um novo governo perante a dificuldade da guerra e a iminência da queda de Mussolini. Badoglio foi chefe do governo do Reino da Itália entre 1943 e 1944. Foi acusado de crimes de guerra como uso de gás tóxico e bombardeio de hospitais da Cruz Vermelha. Os Aliados relevaram essas faltas e Badoglio passou a última década de sua vida na sua cidade natal, no Piemonte.

Uma nova reforma provisória

“Os telegramas para cá transmitidos informam ter sido publicada pelo Diário Oficial a nova lei de ensino. É, por enquanto, tudo quanto sabemos aqui a respeito de mais essa reforma, já há muito elaborada no segredo da Secretaria do Interior; tão em segredo mesmo que, apesar de haver no Rio um Conselho Superior de Ensino, o seu presidente declarou não ter sido ouvido no assunto. Toda a gente sabe as precárias condições do ensino no Brasil; não há duas opiniões a respeito. As sucessivas reformas não têm feito senão agravar essa situação, criando ao lado de outros males sem conta o mal incorrigível da instabilidade. Cada governo julga-se no dever de enfrentar esse complexo problema. E como em tal assunto toda a gente tem opinião, não há titular da pasta do Interior que se não julgue suficientemente habilitado para dar uma solução ao caso. Por isso temos tido uma coleção de leis a respeito, cada qual mais peregrina e que redundam todas na mais completa desorganização. O fato é que estamos em face de uma reforma, naturalmente provisória, e que sem dúvida será por sua vez reformada dentro de dois ou três anos, trazendo, como é costume, um novo abaixamento do nível geral da instrução. É essa a lição dos fatos. De reforma em reforma, e, paralelamente, de degradação em degradação, o ensino em todos os seus graus no Brasil chegou ao mais baixo nível a que poderia atingir. Os resultados do sistema estão patentes a todos. Ninguém ensina, ninguém aprende. Quando teremos uma reforma bastante simples e definitiva que, pondo de parte todas as preocupações de doutrinas e todos os preconceitos, se limite a estabelecer o que os professores devem ensinar, criando condições que obriguem os estudantes a estudar?...”

Rebeldes e legalistas em marcha

“O boletim oficial distribuído pelo Ministério da Guerra diz que as tropas legais em operações no Paraná continuam a avançar. No leste, o primeiro grupo dos destacamentos, depois de haver ocupado Cascavel, atingiu o depósito central dos rebeldes no Arroio Quate. O sétimo regimento de infantaria ocupou as margens do rio da Paz, na picada da linha telegráfica, na Foz do Iguassú. Reina mau tempo em toda a região do Paraná. A sexta bateria do nono regimento recebeu ordem para se recolher a Curityba. O destacamento do norte, que transpôs Pequiry, ocupou Santa Cruz, onde já não encontrou os rebeldes.”

Mais uma vitória do Paulistano

“O match de foot-ball entre o Paulistano e a equipe local Strasbourg], teve o seguinte resultado: [...] Brasileiros 2; Franceses 1”

O Club Athletico Paulistano jogou sua sexta partida na histórica excursão à Europa de 1925, a primeira de um clube de futebol brasileiro, no Stade Tivoli, em Estrasburgo, na França, em frente a cerca de 10 mil espectadores. Utilizando seu uniforme de treino (camisas listradas em branco e roxo, calções e meias pretas), o Paulistano venceu o clube da cidade por 2 a 1. Era a quinta vitória dos brasileiros, tendo amargado apenas uma derrota para o Cette, uma semana e meia antes.

O dia 12 de abril na história

  • 1204 Cruzados invadem e saqueiam Constantinopla, capital cristã do Império Bizantino.
  • 1796 Napoleão Bonaparte vence sua primeira batalha como comandante do exército na Batalha de Montenotte.
  • 1863 Nasce em Angra dos Reis o escritor Raul Pompeia, autor de “O Ateneu”.
  • 1877 A Grã-Bretanha anexa a República do Transvaal, território bôer na África meridional.
  • 1927 O líder nacionalista Chiang Kai-shek ordena a execução de membros do Partido Comunista Chinês que integravam aliança com seu partido.
  • 1931 Nasce em Maranguape, interior cearense, o comediante, ator e escritor Chico Anysio.
  • 1937 O engenheiro britânico Sir Frank Whittle testa pela primeira vez o motor a jato para equipar aviões.
  • 1940 Nasce em Chicago o músico de jazz Herbie Hancock.
  • 1941 Nasce em Barking o jogador inglês Bobby Moore, capitão da seleção inglesa campeã mundial em 1966.
  • 1945 Morre o presidente americano no cargo, Franklin D. Roosevelt; o vice Harry S. Truman assume o cargo.
  • 1955 A vacina contra a poliomielite é declarada segura e efetiva.
  • 1961 O cosmonauta soviético Yuri Gagárin, a bordo da espaçonave Vostok 1, se torna o primeiro ser humano a viajar ao espaço.
  • 1975 Morre em Paris a dançarina, cantora, atriz e ativista franco-americana Josephine Baker, primeira mulher negra a estrelar filme cinematográfico.
  • 1980 O vôo 303 da Transbrasil colide com o Morro da Virgínia próximo a Florianópolis, matando 55 dos 58 ocupantes.
  • 1992 A Disneylândia europeia abre oficialmente na vizinhança de Paris.
  • 2014 Incêndio de grandes proporções destrói milhares de construções em Valparaíso, no Chile, matando 16 pessoas.

O dia 13 de abril na história

  • 1726 Fortaleza, capital cearense, é fundada no local de fortificação erguida no século anterior pelos holandeses na beira do riacho Pajeú.
  • 1885 Nasce em Budapeste o filósofo, historiador e crítico György Lukács.
  • 1870 O museu Metropolitan, de Nova Iorque, é inaugurado.
  • 1901 Nasce em Paris o controverso psicanalista e psiquiatra francês Jacques Lacan.
  • 1906 Nasce em Dublin o escritor e poeta irlandês Samuel Beckett.
  • 1909 O sultão Abdul Hamid II é deposto por levante reacionário no Império Otomano.
  • 1919 Em nova eleição presidencial após a morte do vencedor Rodrigues Alves, Epitácio Pessoa vence Ruy Barbosa.
  • 1919 Massacre de Amritsar: o Exército Britânico da Índia dispara contra manifestantes desarmados que protestavam contra o domínio colonial, matando entre 300 e 1500 pessoas.
  • 1939 A Itália anexa a Albânia como protetorado.
  • 1941 A URSS e o Japão assinam um pacto de neutralidade entre os dois países durante a Segunda Guerra.
  • 1945 Forças soviéticas e búlgaras capturam Viena.
  • 1953 Projeto MKUltra: o diretor da CIA, Allen Dulles, lança o programa de experimentação de drogas e de técnicas de controle da mente via lavagem cerebral e tortura psicológica.
  • 1963 Nasce em Baku, no Azerbaijão soviético, o campeão mundial de xadrez, ativista político e escritor Garry Kasparov.
  • 1964 O ator Sidney Poitier se torna o primeiro afro-americano a vencer o prêmio de melhor ator no Oscar.
  • 1970 Explosão do tanque de oxigênio da espaçonave Apolo 13, com destino à lua, desencadeia operação de emergência para trazer os astronautas de volta à Terra.
  • 1975 Ataque do grupo Falangista (cristão) mata 26 membros da Frente Popular para a Libertação da Palestina, marcando o início dos 15 anos da Guerra Civil Libanesa.
  • 2015 Morre em Montevidéu o escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, autor de “As Veias Abertas da América Latina”.
  • 2015 Morre em Lübeck o escritor, dramaturgo, artista gráfico e poeta alemão Günter Grass, vencedor do Nobel de literatura em 1999.
  • 2020 Morre no Rio o cantor e compositor Moraes Moreira, integrante do grupo Novos Baianos nos anos 1970 e de carreira solo de sucesso.


* O jornal não circulou na segunda-feira, dia 13 de abril de 1925


** A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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