Há um Século no CP

O banditismo do levante de Cruz Alta

Da edição do dia 26 de agosto de 1925, quarta-feira, edição n. 202

O levante de 200 praças de Cruz Alta incluiu roubos a bancos, ataques a particulares e autoridades municipais, uso de armas pesadas e fuga
O levante de 200 praças de Cruz Alta incluiu roubos a bancos, ataques a particulares e autoridades municipais, uso de armas pesadas e fuga Foto : CP Memória

“Em nossa edição de ontem, publicamos a notícia de uma tentativa de levante ocorrida em Cruz Alta e levada a efeito por alguns civis e inferiores do Exército. A força do Exército, cujos inferiores promoveram essa desordem, foi o 6º regimento de artilharia montada, que ali tem seu quartel, e não o 8º regimento de infantaria, por engano, saiu publicado. O 8º regimento de infantaria conservou-se fiel à legalidade, portando-se dentro da disciplina. Esta força foi quem restituiu a cidade à calma habitual, dominando o levante em começo e pondo os rebeldes em fuga. [...] O motim, surgido no quartel do 6º regimento de artilharia montada, foi promovido por alguns sargentos, aderindo mesmo cerca de duzentas praças daquela unidade. A soldadesca indisciplinada, sem medir as consequências da sua arrojada tentativa, saiu à rua às 3 horas da madrugada, armada de fuzis, dirigindo-se em primeiro lugar aos estabelecimentos bancários, com manifesto fim de se apossar do dinheiro ali existente. O primeiro banco atingido foi o Nacional do Comércio, que teve o seu edifício cercado pelos assaltantes, que de fora intimavam o gerente a abrir o referido estabelecimento, não sendo, porém, atendidos por aquele funcionário, que não se intimidou com as ameaças, nem com os disparos de fuzis, feitos a esmo pelos amotinados. Não conseguindo dessa forma efetuar seu criminoso plano na filial do Banco Nacional do Comércio, dirigiram-se os assaltantes à filial do Banco Pelotense e ali intimaram o seu gerente e o respectivo contador para que abrissem o cofre e lhes entregassem o dinheiro ali existente, o que efetivamente aconteceu, logrando os revoltosos levar a quantia de vinte contos de réis, que havia em caixa. Na filial do Banco da Província também estiveram os amotinados, não conseguindo ali, pois no estabelecimento não se achava nenhum funcionário. Depois de praticarem essas façanhas, cometeram eles outras tropelias pela cidade, atacando transeuntes, inclusive o sr. Gabriel Annes, secretário da Intendência Municipal e encarregado do Centro Telefônico, sendo aquele cavalheiro despojado de todo o dinheiro que trazia consigo. Também o sr. Victor Hugo Palmeiro de Azevedo, delegado de polícia, que voltava de uma festa, esteve durante alguns momentos feito prisioneiro dos revoltosos, sendo logo posto em liberdade. Enquanto se desenrolavam esses acontecimentos, as autoridades civis e militares providenciavam no sentido de jugular o motim, o que aliás não foi tarefa difícil, pois bastou sair à rua o 8º regimento com armas embaladas para que entre os soldados amotinados se estabelecesse grande confusão, sendo presa a maioria, tendo alguns se apresentado e outros fugido em diversas direções. Três sargentos cabecilhas do motim fugiram no automóvel do intendente municipal, dr. Vasconcellos Pinto, sendo mais tarde presos no município de Ijuí, por uma escolta da guarnição daquela vila. Em poder desses inferiores, que se dirigiam ao Alto Uruguai, a fim de transporem a fronteira, foram encontrados 17:500$000, parte dos 20 contos retirados da filial do Banco Pelotense. [...]”

Carvão nacional

“Ontem, na Central do Brasil [Rio de Janeiro], foram feitas, numa locomotiva tipo ‘Mikado’, experiências com o carvão nacional, extraído de uma mina de Araranguá. A locomotiva arrastou um trem com 250 toneladas entre as estações de Belém e a Barra do Piraí, carga essa mais pesada que a dos expressos extraordinários, cuja composição comum é de 230 toneladas, vencendo com a velocidade dos expressos. O gasto do combustível foi de 35 quilos por quilômetro. Os jornais se regozijam com o resultado das experiências, que dizem virão libertar o Brasil da importação de carvão estrangeiro, evitando assim o escoadouro do ouro.”

Pá de cal

A lei cerebrina que desorganizou o ensino superior, vai receber a sua pá de cal. Telegramas do Rio anunciam que o governo resolveu anulá-la na parte mais controversa, o que é, virtualmente, revogá-la de todo. Como se sabe, essa lei foi elaborada por um ministro, por delegação do Congresso. Já esse fato seria suficiente, em país em que a letra constitucional tivesse qualquer valor, para inquiná-la de nulidade. O Congresso não pode delegar a terceiros poderes que lhe são privativos. Legislar não é uma simples prerrogativa de que os representantes da Nação possam, a bel-prazer, abrir mão. É função inerente ao ramo do poder público em que eles estão vestidos temporariamente. Dado, porém, de barato, para sacrificar as praxes tradicionais na sua singularidade, que o pudesse fazer, a autorização legislativa cessou com o decreto de promulgação da lei. Boa ou má, ela deveria ser cumprida integralmente. Nem ao governo, nem ainda aos seus serventuários, assiste o direito legal de alterar, no que quer que seja, o texto oficial constante do decreto que o instituiu. Suprimir o governo, a seu arbítrio, um certo número de artigos dessa lei é, ninguém o negará, modificá-la não apenas na forma, mas no fundo, e torná-la portanto juridicamente insubsistente. Um simples ‘habeas-corpus’ oportuno virá varrer esses frangalhos de legislação, esse monturo de incoerências, que o governo tinha deixado para atestar a invalidez moral e mental daqueles para cujas mãos rolaram os destinos nacionais.”

Cenas lamentáveis

“Lamentável — e, mais que isso, profundamente vergonhoso —, o incidente [após a marcação de pênalti contra a equipe do interior, o jogador Cabillon, do Santanense, tenta agredir o árbitro Maysonnave, desencadeando briga generalizada e a paralisação do jogo] ocorrido ontem no ‘match’ entre o Grêmio Santanense e o Grêmio Porto Alegrense. Vergonhoso pelo fato em si — que vem colocar abaixo do que ela realmente é a nossa cultura esportiva; lamentável, por se dar este incidente, justamente na ocasião em que se procura reivindicar para o futebol a pujança e esplendor de há poucos anos passados. Depois de ocorrências como esta, queixem-se do desalento dos bem-intencionados em matéria esportiva — pessoas de elevada posição social que, ainda há pouco tempo, viam-se com ardor à frente de clubes e ligas; depois disto, esforcem-se os cronistas esportivos pelo levantamento do futebol; depois desses fatos, malsinem o profissionalismo, achem exagerada a ‘torcida’, falem da deserção dos ‘grounds’, do público e, especialmente, das exmas. famílias, quando a causa primordial da falta do entusiasmo de hoje para o outrora tão apreciado sport bretão — que, dessa maneira, pode-se dizer, vai a caminho da decadência —, está representada nos próprios jogadores: que menosprezam e desrespeitam a autoridade do juiz, perdem a compostura, dão lugar a cenas como a de ontem. [...] lembramos, sem maiores comentários, as palavras proferidas por um dos oradores numa sessão solene para entrega de prêmios da Associação Porto Alegrense de Desportos: ‘O esporte sem idealidade é a última das diversões. O futebol sem ideias esportivas é o último dos esportes’.”

O dia 26 de agosto na história

  • 1071 Os turcos seljúcidas derrotam o exército bizantino na Batalha de Manzikert e capturam o imperador Romanos IV Diógenes. Início efetivo da conquista turca da Anatólia.
  • 1498 Michelangelo é contratado para esculpir a Pietà.
  • 1542 O explorador espanhol Francisco de Orellana atravessa a América do Sul por terra partindo de Guayaquil, no Equador, chegando até a foz do rio Amazonas, na costa atlântica.
  • 1648 Início da primeira Fronda: insurreição política e formação de barricadas em Paris.
  • 1682 O astrônomo inglês Edmond Harley observa pela primeira vez o cometa que levará o seu nome.
  • 1723 Morre na República Holandesa o cientista Antonie van Leeuwenhoek, “pai da microbiologia”.
  • 1743 Nasce em Paris o químico e biólogo francês Antoine de Lavoisier.
  • 1768 O navegador britânico James Cook zarpa do sul da Inglaterra para sua primeira viagem de exploração do Pacífico Sul.
  • 1789 A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão é aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte no início da Revolução Francesa.
  • 1883 A erupção do vulcão Krakatoa, um dos mais destrutivos eventos vulcânicos da história, entra em seu estágio final. Ao menos 36 mil mortes são atribuídas à erupção e aos tsunamis ocasionados.
  • 1914 Fundado em São Paulo (como Palestra Itália) o clube de futebol Sociedade Esportiva Palmeiras.
  • 1914 Nasce em Ixelles, na Bélgica, o escritor, poeta e tradutor franco-argentino Julio Cortázar.
  • 1943 Nasce no Rio de Janeiro o cantor, compositor, instrumentista e produtor Dorival Caymmi.
  • 1960 Nasce na Louisiana o saxofonista e compositor americano Branford Marsalis.
  • 1972 Abertura oficial das Olimpíadas de Munique, na Alemanha ocidental.
  • 1997 João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha, é libertado da prisão após cumprir 30 anos.
  • 1999 A Rússia inicia a Segunda Guerra da Chechênia após a invasão do Daguestão por uma brigada islâmica.
  • 2024 Morre em Sunne o ex-jogador e técnico sueco Sven-Göran Eriksson.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios

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