Há um Século no CP

Ex-presidente se justifica em autobiografia

A edição do dia 3 de junho de 1925, quarta-feira, edição n. 130, noticiava

O paraibano foi deputado federal, ministro da Justiça do governo Campos Sales, ministro do STF e enfim senador, além de liderar a delegação brasileira na Conferência de Paz de Versalhes ao fim da Primeira Guerra Mundial. Como presidente, enfrentou um movimento operário atuante e uma crescente indisposição com o setor militar
O paraibano foi deputado federal, ministro da Justiça do governo Campos Sales, ministro do STF e enfim senador, além de liderar a delegação brasileira na Conferência de Paz de Versalhes ao fim da Primeira Guerra Mundial. Como presidente, enfrentou um movimento operário atuante e uma crescente indisposição com o setor militar Foto : CP Memória

“Num dos capítulos do seu livro ‘Pela Verdade’, o sr. Epitácio Pessoa descreve a sua vida, desde o primeiro emprego público até a sua entrada para a política, enumerando as somas que conseguiu juntar com economias antes de assumir a presidência. ‘Quando assumi a presidência da República — diz o sr. Epitácio — era já dono de alguns bens em imóveis e títulos, provenientes de heranças e outros de economias de 38 anos de trabalho, durante os quais exerci a advocacia e ocupei os mais elevados cargos e comissões na República. Durante o governo, os recursos vieram-me de três fontes: dos bens que já possuía, do subsídio de presidente e dos meus vencimentos de juiz aposentado. Destes, nunca me servi; distribuí tudo pelos necessitados. O subsídio dá largamente para as despesas do presidente. Assim, no governo, eu tinha livre todo o rendimento dos meus bens e ainda podia contar com as sobras do meu subsídio. Eis aqui tudo o que adquiri no espaço de tempo compreendido entre 28 de julho de 1919 até 15 de novembro de 1922: Comprei 2.000 ações do Banco do Brasil por 664:184$000. O dinheiro que serviu para comprar estes títulos proveio: de letras de S. Paulo, 418:000$000; de um empréstimo tomado à firma Pessoa de Queiroz, de Pernambuco, e reembolsado com os juros, 120:000$000; dos dividendos de ações de banco, 68:000$000, e de juros e obrigações do Tesouro, 7:000$000. Assim, as operações representam a simples inversão dum capital preexistente, exceto a importância de 48:000$000, com os quais comprei 800 apólices federais ao portador. Se eu me medisse pela craveira dos meus difamadores, não denunciaria a existência de títulos ao portador, que ninguém podia provar serem de minha propriedade. Declaro, pois, que quando governo comprei 800 apólices federais ao portador. Estas apólices foram adquiridas nos últimos dias da minha presidência, sendo 440 a 732$000, 360 a 727$000, num total de 583:800$000.’”

O advogado paraibano Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa foi deputado federal, ministro da Justiça do governo Campos Sales, ministro do STF e enfim senador. Liderou a delegação brasileira na Conferência de Paz de Versalhes ao fim da Primeira Guerra Mundial. Em 1918, Rodrigues Alves foi eleito à presidência, mas não pode assumir por motivos de doença, vindo a falecer em janeiro de 1919. Após novas eleições, Epitácio Pessoa se saiu vencedor mesmo ainda ausente do país. Retornou em julho e assumiu como presidente do Brasil, cargo que exerceu até 1922. Seu governo foi extremamente atribulado, com insatisfação crescente nas Forças Armadas e movimentos grevistas fortes que já vinham atuando desde o governo anterior. Pessoa conduziu uma repressão severa, com prisões e deportações. A indisposição com o setor militar foi se agravando até resultar em crise aberta, inclusive com a prisão do marechal Hermes da Fonseca, presidente da República entre 1910 e 1914, e o fechamento do Clube Militar. Rebeliões militares estouraram no Rio de Janeiro e no Mato Grosso. O movimento tenentista surge deste contexto de afronta do poder presidencial às Armas. Epitácio Pessoa passou o cargo a Artur Bernardes em 1922 em meio a grandes polêmicas e críticas. A convite da Liga das Nações, após deixar a presidência assume o posto de Rui Barbosa na Corte Internacional de Justiça de Haia, acumulando o cargo com o de senador.

Missão americana do café

“A missão americana do café, chegada ontem a bordo do ‘Vauban’, recebeu, à noite, as homenagens do comércio do café no Rio. Num almoço em que reinou a maior cordialidade, falou o sr. Augusto Ramos, que salientou a importância dessa visita, estudando longamente a situação da lavoura e do comércio do café. Respondeu-lhe o chefe da missão, sr. Frederico Ach, o qual desmentiu categoricamente a balela do ‘boicote’ ao café brasileiro nos Estados Unidos. Logo depois, os membros da missão foram recebidos no Catete pelo sr. Arthur Bernardes, presidente da República, com o qual mantiveram cordial palestra.”

Distúrbios anti estrangeiros na China

“Estende-se a paralisação do trabalho em consequência do movimento anti-japonês. Hoje [2 de junho], continuaram as desordens, das quais resultaram a morte de outros 4 estudantes chineses, atingindo agora um total de dezesseis mortes desde sábado, data em que estalaram os distúrbios.”

“O correspondente do jornal Exchange Telegraph em Xangai telegrafou comunicando ter sido decretado naquela cidade o estado de sítio. A multidão atacou os quartéis de polícia, os quais responderam ao ataque com disparos, matando vinte homens e ferindo muitos. Do Distrito Central saíram navios de guerra estrangeiros que se dirigem para Xangai, onde os chineses proclamaram a greve geral.”

Investigação na Casa de Correção

“Prosseguiu ontem o inquérito aberto na Casa de Correção para apurar as causas do princípio de incêndio manifestado anteontem nas oficinas de marcenaria desse estabelecimento. Pela manhã, às 7:30 horas, ali esteve o dr. Plauto de Azevedo, administrador da Penitenciária, submetendo a interrogatório todos os presos das oficinas e ordenando o seu fechamento até a chegada da autoridade competente. Às 9 horas, ali compareceram o dr. Pompílio de Almeida, delegado judiciário do 1° distrito, e os peritos nomeados para esse fim, os quais inspecionaram minuciosamente o local do sinistro. Aquela autoridade ouviu o chefe das oficinas, os seus auxiliares, assim como todos os guardas internos da Casa de Correção. Depois de rigoroso exame, o dr. Pompílio de Almeida apurou a casualidade do incêndio, tendo a este respeito enviado o competente relatório ao desembargador chefe de polícia. Os prejuízos causados, segundo o laudo dos peritos, montam a 300$000. As existências da oficina, móveis prontos, ferramentas, maquinário, representam a importância de 57 contos de réis e não estão seguradas.”

O dia 3 de junho na história

  • 1839 A destruição de 1,2 milhão de quilos de ópio confiscado de mercadores britânicos em Humen, na China, abre as hostilidades entre os dois países, levando à Primeira Guerra do Ópio.
  • 1875 Morre em Paris o compositor Georges Bizet, autor da ópera “Carmen”.
  • 1906 Nasce em St. Louis a dançarina, cantora e atriz naturalizada francesa Josephine Baker, a primeira mulher negra a estrelar um longa-metragem.
  • 1924 Morre em Klosterneuburg, na Áustria, o escritor judeu tcheco Franz Kafka, autor de “A Metamorfose”, “O Processo”, entre outros.
  • 1926 Nasce em Newark o poeta e escritor americano Allen Ginsberg, ícone da Geração Beat.
  • 1931 Nasce em Birán o general e político cubano Raúl Castro, primeiro-secretário do Partido Comunista Cubano, presidente de Cuba e irmão do revolucionário Fidel Castro.
  • 1979 Explosão na plataforma do poço Ixtoc I, na Baía de Campeche, no Golfo do México, provoca o vazamento de cerca de 3 milhões de barris de petróleo.
  • 1986 Nasce em Manacor o tenista espanhol Rafael Nadal, n. 1 do ranking da ATP por 209 semanas.
  • 1989 O governo chinês envia tropas para forçar a retirada dos manifestantes da Praça da Paz Celestial, em Pequim, após 7 semanas de ocupação.
  • 2006 O país balcânico de Montenegro declara formalmente a independência, extinguindo a união com a Sérvia.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios