Há um Século no CP

Nobre antifascista italiano detido pelo governo escapa de navio

Da edição de 20 de outubro de 1926, quarta-feira, n. 248

O socialista veio ao Brasil para dirigir importante jornal antifacista da comunidade italiana de São Paulo
O socialista veio ao Brasil para dirigir importante jornal antifacista da comunidade italiana de São Paulo Foto : CP Memória

“A fuga do Conde Frola do navio onde estava preso continua a ser o assunto do dia. Pelas declarações prestadas pelos três investigadores destacados para vigiar o ex-deputado e jornalista italiano, apurou-se que dele conseguiu fugir de bordo nas primeiras horas da madrugada de domingo, ignorando-se, porém, com exatidão de que forma e com o auxílio de quem. O que está definitivamente apurado é que os investigadores, todos três da maior confiança do inspetor da Polícia Marítima e reconhecidamente hábeis policiais, não são coniventes, nem sequer se descuidaram, dando dessa maneira oportunidade a que o passageiro impedido levasse a efeito o plano de fuga que premeditara. As autoridades policiais estão certas que o Conde Frola não poderia escapar sem que se oferecessem facilidades e sem que lhe fossem prestados os auxílios indispensáveis a tal empreendimento. Toda a oficialidade do navio e toda a tripulação reverberavam a todo o instante a medida posta em prática contra o ex-deputado italiano. Isso o faziam em face dos investigadores, que ali estavam apenas em cumprimento de ordens que haviam recebido. O ambiente a bordo era favorável ao impedido e hostil à polícia. Daí explicar-se o fato de haver sido o diretor do ‘Corriere degli Italiani’ transferido, preconcebidamente, para um camarote que dá comunicação para outro, este justamente situado em lado oposto ao em que se encontravam os agentes da polícia, que foram assim iludidos, não propriamente pela pessoa que eles vigiavam, mas por outras interessadas na fuga do Conde Francesco Frola.”

“Os agentes que estavam de serviço a bordo do paquete ‘Ipanema’ quando dali fugiu o Conde Frola, Rolim e Appolonio Costa, estiveram na Central da Polícia, onde declararam ao 3º delegado auxiliar ignorar que o camarote número 1, onde se instalara o jornalista, tivesse comunicação com o número 2. Depois de ouvidos, o 3º delegado auxiliar levou-os à presença do chefe de polícia, que também os ouviu, determinando em seguida a abertura de um inquérito para que fique apurado a quem cabe a responsabilidade pela fuga do Conde Frola Francesco.”

“‘O Jornal’, em editorial, ataca a polícia por ter proibido o desembarque do Conde Frola, inimigo do fascismo. Diz ‘O Jornal’ que é bem fácil compreender que o governo brasileiro não tomaria espontaneamente semelhante atitude, que importa em uma clamorosa violação de dispositivos cristalinos de nosso estatuto básico. Acrescenta: ‘Estamos, é verdade, em estado de sítio, mas não em eclipse constitucional. O arbítrio do governo tem limites precisos dentro do próprio texto da magna carta, que o armou com faculdades amplas para prender em lugares não destinados aos réus comuns ou desterrar para outros pontos do território nacional os cidadãos suspeitos de nocivos e perigosos à segurança das instituições’.”

“Causou grande sensação aqui [São Paulo], principalmente entre a colônia italiana, o caso da fuga, no Rio, do conde Francisco Frola, ex-deputado italiano, diretor do jornal antifascista ‘Corriere degli Italiani’, de Paris, que foi há dias impedido de desembarcar em Santos do vapor ‘Ipanema’, devido à intervenção, segundo consta, do embaixador italiano. A polícia carioca empreendeu logo diversas diligências, prendendo os investigadores que estavam encarregados de vigiar o conde Frola. Segundo versões correntes, o jornalista conseguiu fugir de bordo às primeiras horas da madrugada de domingo, sendo ignoradas as circunstâncias da fuga e se foi auxiliado por alguém, parecendo que saiu do camarote contíguo ao número um, que tinha ligação com o seu. Até agora é ignorado o paradeiro do jornalista.

As autoridades estão certas de que Frola não poderia fugir caso não houvesse auxílio. O ambiente a bordo era inteiramente favorável ao conde Frola, correndo que a oficialidade o teria colocado em local de onde facilmente conquistasse liberdade. Até agora era ignorado o paradeiro do jornalista.”

Francesco Frola nasceu em Turim, em 1886, de família tradicional e abastada. Militou no movimento socialista desde a juventude. Com a ascensão do fascismo no início da década de 1920, sua oposição ferrenha levou à necessidade de se exilar na França, na Argentina, no México e principalmente no Brasil. Em 1926, Frola foi convidado a assumir a direção do jornal antifascista (escrito em italiano e português) La Difesa, fundado em São Paulo pelo também italiano Antonio Piccarolo em 1923 e que circulou até 1934. A notícia reporta a detenção de Frola ainda a bordo a partir de solicitação do regime fascista italiano. Após sua fuga, Frola assumiu a condução do periódico e estabeleceu-se na capital paulista.

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Vandalismo

“A Câmara dos Deputados nos últimos dias parecia ter abandonado a fiscalização rigorosa que vinha mantendo desde a inauguração do Palácio Tiradentes [nova sede do legislativo, no Rio de Janeiro]. Qualquer pessoa podia ali ingressar sem o menor esforço. Dessa forma, os corredores e a sala de café viviam abarrotados. Hoje apareceram os frutos dessa liberdade. Três riquíssimos móveis instalados nos corredores que circundam o recinto surgiram cortados à navalha. Essa cena de vandalismo monopolizou a atenção de todos. Formavam-se grupos em torno dos móveis mutilados e os comentários ferviam. Um deputado paulista frisava o contraste: o máximo rigor para jornalistas, encafuados nos nichos como indesejáveis, e a ampla liberdade para os cabos eleitorais e os ‘mordedores’ que procuram o novo palácio da Câmara. O povo, esse apenas tem direito a ir para o quinto andar. O sr. Raul Sá andava aflito com o sucedido. Lamentava-o e, com a amabilidade tão do seu feitio, solicitou da imprensa — ela que tem sido escorraçada pelos dirigentes da Câmara — que fizesse um apelo aos que têm entrada no palácio no sentido de não se entregarem a excessos condenáveis dessa natureza, que tanto depõem contra a educação do nosso povo.”

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“Bandidos” sicilianos

“O grupo de bandidos dos irmãos Sacco, inclusive estes, entregou-se à polícia depois de prolongado combate no qual foi morto um deles. A força pública cercou os bandidos na casa de uma fazenda, lutando com eles até a sua rendição. Nas mãos dos criminosos foram encontradas cinco espingardas do modelo usado no exército.”

“Cerca de noventa dos noventa e cinco bandidos chefiados pelos irmãos Sacco foram presos em setembro. Os restantes, que se foram reunindo no distrito de Raffadali, renderam-se aí. Isto deu motivo a grandes demonstrações de regozijo em todo o distrito.”

A história da “Banda Sacco” (termo italiano para “gangue”) é controversa. Segundo a versão mais aceita, a família Sacco, residente na localidade de Raffadali, próxima a Agrigento, no sul da Sicília, opôs-se à cobrança do “pizzo”, a tradicional extorsão da máfia local. Armando-se para sua própria proteção, formam, a propósito, uma “banda”, andando em grupo. O pai é então assassinado e os filhos são acusados do crime, o que causa a perda do porte legal de armas pelos irmãos. Esse desdobramento é visto como o abandono da família pelas autoridades, em conluio com a máfia. Os integrantes da família tornam-se então foragidos da justiça e perseguidos pela máfia. A partir daí, algumas importantes figuras locais aparecem mortas. A notícia acima possivelmente dá conta da captura do bando pelas forças de polícia na sequência da condenação à prisão dos três irmãos (Alfonso, Giovanni e Salvatore), julgados por todos esses assassinatos. Os Sacco são libertados apenas na década de 1960. O escritor Andrea Camilleri publicou em 2013 o romance “La Banda Sacco” baseado no caso.

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Excesso de zelo

“Informam os telegramas que um importante político italiano teve, no porto de Santos, impedido o seu desembarque, mercê da intervenção do governo do seu país. Até aqui nada se conhece de estranhável, por que assiste, de fato, à ação diplomática a faculdade de se imiscuir no assunto. A razão dada, segundo esses telegramas, pelo governo italiano e aceita por nossas autoridades para a proibição do desembarque desse passageiro, que é, nem mais nem menos, o ex-presidente do parlamento de sua pátria, essa sim torna-se deveras estranhável e merecedora de reparos. Não se trata de nenhum criminoso comum, nem de qualquer ‘scroc’, ou indesejável fugido à perseguição das autoridades, mas de um político em evidência notória, segundo declara o próprio governo do seu país natal, cujo delito consiste em ser adversário da política dominante na Itália e ‘ter contas a prestar ao fascismo’. A vítima do ‘trop de zèle’ das autoridades paulistas é também um jornalista de renome e por isso a Associação da Imprensa do Rio de Janeiro encarregou já o causídico Evaristo de Moraes de tratar do caso judicialmente, a fim de que, na capital da República, não se repita a desagradável cena ocorrida em Santos. Não se repetirá, decerto; do contrário, teremos dentro em breve aberto o exemplo a extradição para os crimes políticos, se tanto apetecer aos desejos de qualquer governante estrangeiro que tente perseguir seus irreconciliáveis desafetos.”

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O dia 20 de outubro na história

  • 1803 O senado americano ratifica a Compra da Louisiana (mais de 2 milhões de km²) da França por 15 milhões de dólares.
  • 1882 Nasce no Reino da Hungria o ator Bela Lugosi, famoso como a incarnação clássica de Drácula no cinema americano.
  • 1904 Chile e Bolívia assinam tratado de paz, definindo fronteiras entre os países após a Guerra do Pacífico.
  • 1916 Assinado no Rio de Janeiro o Acordo de Limites Paraná-Santa Catarina, encerrando a Guerra do Contestado.
  • 1935 Termina a Grande Marcha, a retirada das forças do Partido Comunista Chinês, perseguidas pelo exército do Kuomintang.
  • 1944 Belgrado é liberada das forças nazistas pelo Exército Vermelho e partisans iugoslavos.
  • 1947 O governo brasileiro rompe relações diplomáticas com a URSS após a detenção do segundo secretário da embaixada em Moscou acusado de embriaguez e arruaça. As relações foram restabelecidas em 1961.
  • 1951 A 1ª Bienal Internacional de São Paulo é aberta oficialmente no local atualmente ocupado pelo MASP.
  • 1962 Disputas de fronteira motivam o início da Guerra Sino-Indiana entre a China e a Índia.
  • 1964 Nasce em Oakland, Califórnia, a advogada e candidata à presidência americana, Kamala Harris.
  • 1973 “Massacre do Sábado à Noite”: uma série de demissões de diversos postos judiciários no contexto do Caso Watergate.
  • 1973 A Opera House de Sydney, Austrália, é inaugurada pela rainha Elizabeth II.
  • 1977 Seis pessoas, incluindo três membros da banda americana Lynyrd Skynyrd, morrem após a queda de avião no Mississippi.
  • 1979 Com a aprovação da anistia, Luís Carlos Prestes retorna ao Brasil após mais de 10 anos de exílio na URSS.
  • 1982 66 pessoas morrem esmagadas durante a partida da Copa da UEFA entre Spartak Moscou e Haarlem, no estádio Luzhniki, em Moscou.
  • 1991 Ayrton Senna conquista o tricampeonato mundial de Fórmula 1 ao chegar em segundo lugar no GP do Japão.
  • 2011 O ditador da Líbia, Muammar Gaddafi, é capturado e morto com seu filho Mutassim por forças rebeldes durante a primeira guerra civil líbia.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios