Há um Século no CP

Reação à falsificação do vinho gaúcho

A edição do dia 23 de abril de 1925, quinta-feira, edição n. 95, noticiava

Os vinhos produzidos no Rio Grande do Sul sofriam constantemente com adulteração ao chegarem aos mercados importadores do centro do país. Alguns produtores apresentaram pedido formal ao governo do Estado de ações que dificultassem as fraudes
Os vinhos produzidos no Rio Grande do Sul sofriam constantemente com adulteração ao chegarem aos mercados importadores do centro do país. Alguns produtores apresentaram pedido formal ao governo do Estado de ações que dificultassem as fraudes Foto : CP Memória

“Diversas firmas comerciais desta capital que se dedicam à exportação de vinhos produzidos neste Estado representaram à Associação Comercial de Porto Alegre, expondo-lhe a situação em que se encontram, lutando com os desdobradores e falsificadores dos vinhos rio-grandenses, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, pois, adquirindo eles um barril de vinho natural, de uva, nesta capital, desdobram-no em dois ou mais barris, não escrupulizando em empregarem drogas ou substâncias artificiais altamente nocivas à saúde de quem consome tais beberagens.

O texto da representação Geral da Associação Comercial que foi entregue na Secretaria é o seguinte: ‘Ilmos Srs. Presidente e demais membros da Associação Comercial desta capital. Os abaixo-assinados, sócios dessa Associação e exportadores de vinho natural de uva, pedem vênia para fazer a vv.ss. a seguinte exposição: Em tempo, quando os selos do imposto de consumo eram indistintos para qualquer qualidade de bebidas, a indústria vinícola do nosso Estado foi grandemente prejudicada pelo fato de negociantes pouco escrupulosos, principalmente do Rio de Janeiro e S. Paulo, como também de outros Estados, angariarem vinho rio-grandense para desdobrá-lo, obtendo de 1 barril 2 ou mais, empregando para isso substâncias artificiais e nocivas à saúde, e vendê-lo como vinho puro, o que lhe facilitava o fato de poderem comprar, por intermédio de qualquer fábrica de outras bebidas, ou de vinagre, os respectivos selos. Mais tarde, atendendo a reclamação dos fabricantes e exportadores, o Governo Federal criou o selo especial para vinho nacional, o que diminuiu muito aquela indústria clandestina. Infelizmente, há pouco, o Governo Federal, não se sabe se como medida de economia, resolveu abolir os selos especiais para o vinho, sendo vendidos para o mesmo os selos destinados às bebidas em geral, medida essa que fez reviver em grande escala o desdobramento do vinho rio-grandense, pois que está sendo vendido como vinho do Rio Grande uma beberagem obtida não somente do desdobramento do vinho, porém até de quaisquer drogas nocivas à saúde. Aqui, no Estado o perigo do desdobramento está excluído, porque todas as outras bebidas, assim como o vinagre, estão sujeitas ao selo estadual, o que impossibilita a compra de selos para outra espécie com o fim de aplicá-las ao produto obtido pelo desdobramento. Entretanto, em outros Estados, como por exemplo no Rio de Janeiro e S. Paulo, o fabricante de vinho por desdobramento não encontra dificuldades para conseguir os selos para as drogas fabricadas. É bastante registrar-se como fabricante de vinagre para habilitar-se a comprar a quantidade de selos que necessitar para o desdobramento, ou adquirir de fábricas já existentes, por um preço muitas vezes duplo do real. Há dados certos de que, somente nos meses de janeiro e fevereiro deste ano foram fabricados dessa forma mais de quatro mil barris de vinho, que foi vendido como vinho do Rio Grande. É fácil de calcular que aqueles fatos trazem um prejuízo enorme para a indústria vinícola em nosso Estado, não somente porque diminuem grandemente a exportação, como ainda desacreditam o produto. Nestas circunstâncias, os abaixo assinados vêm apelar para essa Associação que sempre soube salvaguardar os interesses da indústria e do comércio, pedindo a valiosa interferência de VV. SS. no sentido de conseguirem do sr. ministro da Fazenda que sejam restabelecidos os selos especiais para o vinho natural de uva, o que, se bem que não possa evitar de todo, a fraude, em todo o caso dificultará a angariação de selos para o produto obtido pelo desdobramento. Os abaixo assinados aproveitam a ocasião para apresentar-lhes os protestos de alta estima e consideração. E. E. deferimento. Porto Alegre, 16 de abril de 1925, (Assinados) Luiz Ceroni e Cia., Luiz Antunes e Cia., Oscar Germany e Cia., A. Rizzo e Irmão, Candiota Irmãos e Lubisco, Rogerio Fava, Frederico Mentz e Cia. Corbeta Termignoni, Cia. Ind. e Merc, ‘Casa Fracalanza’, Morandi Fava e Cia., José Verdi e Cia.’

A Associação Comercial atendeu imediatamente ao pedido dos exportadores de vinhos rio-grandenses e, nesse sentido, oficiou ao dr. Annibal Freire, ministro da Fazenda, solicitando o restabelecimento do selo especial para o vinho nacional, franquia aquela que, como se lê na representação anteriormente reproduzida, provavelmente por motivos de economia, foi suprimida pelo Governo Federal. A Associação Comercial remeteu ontem ao dr. Borges de Medeiros, presidente do Estado, as cópias do ofício que enviou ao titular da pasta da Fazenda e da representação dos exportadores de vinhos, tendo solicitado a sua exc. o seu apoio para a justa pretensão dos seus representados.”

A união dos governantes da Serra

“Semanas atrás noticiamos que se tratava de realizar uma reunião de intendentes da região colonial a fim de serem estudados numerosos assuntos, todos de capital importância para a mesma. A instalação dos trabalhos está marcada para o dia 3 de maio próximo devendo a reunião se efetuar na cidade de Caxias. A ideia dessa reunião, que partiu de uma palestra havida entre diversos edis, conquistou de início o mais franco apoio, despertando o maior interesse e granjeando gerais simpatias. Observando-se, de fato, os diversos municípios que constituem a zona colonial, verifica-se, diz um jornal de Caxias, a grande disparidade existente entre os mesmos, seja na parte referente a tributação, seja nos problemas de viação e ensino, ao passo que as suas condições agrícolas, econômicas e sociais exigem a completa uniformidade administrativa. Era, pois, de urgente necessidade uma troca de ideias entre os dirigentes dos municípios de Caxias, Alfredo Chaves [atual Veranópolis], Antonio Prado, Bento Gonçalves, Encantado, Garibaldi, Guaporé, Nova Trento [atual Flores da Cunha], Prata, S. Francisco de Paula de Cima da Serra e S. Sebastião do Cahy. [...] Celeste Gobbato [intendente de Caxias] resumiu nos seguintes itens os principais pontos [...] a serem estudados: a) estudo e possível unificação dos códigos de postura; b) exame para a possível substituição do imposto de estatística e expediente por tributação equivalente; c) problema da viação rural e intermunicipal; d) ensino elementar e profissional; e) exame e eventual unificação dos códigos de postura municipais; f) criação de um viveiro intermunicipal e meios para fomentar a racional agricultura colonial; e, finalmente g) diversos outros assuntos de interesse comum. [...]”

A resistência marroquina

“Um comunicado oficial de Mellilla sobre a luta marroquina informa que um ‘mehalla’ estabeleceu um serviço de emboscada nas imediações de Asid-Midar. Pequenos grupos que intentavam acercar-se de Afarum foram dissolvidos sob o fogo de fuzil e de metralhadoras. A aviação bombardeou Talilit e Mehagast, destruindo algumas casas.

“Informam de Espanha que as últimas notícias desmentem os insistentes boatos que afirmavam a ruptura de negociações com Abd-el-Krim, o chefe da insurreição marroquina. Este teria enviado pelo correio sua resposta que está em curso para a celebração de uma conferência em Tanger on Gibraltar com o sr. Echevarrieta. Com a chegada do general Primo de Rivera a Madrid e a visita do sr. Echevarrieta, poder-se-ia estudar a necessidade de se fixar as condições para as negociações da paz.”

O dia 23 de abril na história

  • 1516 A Reinheisgebot, lei de pureza da cerveja alemã, entra em vigor na Bavária prevendo como ingredientes exclusivamente água, cevada e lúpulo (não inclui levedura).
  • 1564 Data atribuída pela tradição ao nascimento do escritor, ator, poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare.
  • 1616 Morre em Stratford-upon Avon o poeta William Shakespeare.
  • 1849 O escritor russo Fiódor Dostoiévski é preso pela polícia secreta czarista por supostas atividades revolucionárias.
  • 1920 Fundada em Ancara a Grande Assembleia Nacional da Turquia, o parlamento unicameral do país.
  • 1936 Nasce no Texas o cantor, compositor e guitarrista americano Roy Orbinson.
  • 1942 A militante comunista judia-alemã Olga Benário Prestes morre em câmara de gás no campo de extermínio de Bernburg.
  • 1954 Nasce em Flint, Michigan, o cineasta, diretor, produtor e escritor americano Michael Moore.
  • 1961 Putsch de Argel: falha tentativa de militares veteranos franceses de forçar o presidente Charles De Gaulle a não abandonar a Argélia francesa.
  • 1968 Estudantes tomam e fecham prédios administrativos da Universidade Columbia, em Nova Iorque, em protesto contra a Guerra do Vietnã.
  • 1984 O governo americano anuncia a descoberta do vírus responsável pela AIDS.
  • 1985 A Coca-Cola muda sua fórmula, lançada como New Coke; a repercussão é imensamente negativa e a fórmula original é restabelecida em menos de 3 meses.
  • 1993 A população da Eritreia vota massivamente pela independência da Etiópia em referendo monitorado pela ONU.
  • 1998 Morre na prisão aos 70 anos James Earl Ray, assassino de Martin Luther King Jr. em 1968.
  • 2005 O primeiro vídeo disponibilizado no YouTube é publicado pelo cofundador Jawed Karim.
  • 2007 Morre em Moscou o ex-presidente russo Boris Yeltsin, primeiro mandatário da Rússia após o fim da URSS.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios