Catedral da solidão
Saio cada vez menos para conversar. Não bebo álcool faz alguns anos. Fico perdido nas conversas de bar. Vou ao cinema, ao teatro, a shows, viajo. A objetividade ainda vai me matar. Se bem que amo as paisagens e nelas encontro aconchego e toques sublimes. Certas tardes, paro à minha janela e contemplo os morros distantes como quem olha uma obra de arte no Louvre ou no Museu d’Orsay. Há tanta beleza nessas elevações melancólicas salpicadas de casinhas coloridas vistas à distância como pontinhos num quadro impressionista. Já me aconteceu até de aparar uma lágrima furtiva que se jogou do meu olho esquerdo.
Creio que já passei da idade de fazer novos amigos. Cada vez mais eu me apego aos antigos. Chego a cavoucar na internet nomes de amigos de infância. Quando os localizo, desisto de ir ao encontro deles. Fico feliz em saber que estão por aí. Outro dia, procurei o Carlos Roberto. Achei-o depois de muita luta. Mora em Petrópolis. Não o surpreenderia com a chatice de um telefonema depois de 48 anos:
– Alô...
– Aqui é o Juremir...
– Que Juremir?!!
– Eu tinha uma bola amarela...
A amizade é estranha. Ela se agarra a um elo invisível. Sou um sujeito bizarro. A presença de um amigo vale para mim mais do que mil palavras. Posso ficar em silêncio ouvindo a respiração do tempo compartilhado. Não sei se tenho muito a dizer. Pode ser que aos meus melhores amigos eu já tenha dito tudo o que podia. Um amigo me fala:
– Como vão as coisas?
Não sei mais que coisas são essas. Quando sou eu a ligar, digo:
– Quais as novidades?
Que novidades pode haver? A amizade dispensa os fatos, as notícias, o futebol, as doenças, os inventários, as novidades e as confissões. Tudo isso pode ser comentado. Tudo isso é comentado. A verdadeira amizade é uma espécie de catedral onde rezam em silêncio aqueles que se comunicam por sentimentos. E os amigos que partiram? Quando faço a lista, sinto o peso do tempo e a alegria do vivido:
– Eu tive amigos – exclamo para mim e me sinto feliz.
Eu tenho amigos, completo. No ônibus, encontrei uma amiga. Não nos víamos há uns 30 anos. Por trás da sua nova imagem havia a velha fotografia. Por trás dos cabelos curtos, os longos cabelos de antes.
– Passamos – ela disse.
– Juntos – eu falei.
Ela desceu na sua parada. Eu segui no meu banco. Sorrindo. Não sou de expansões. Uma velha amiga me cobra por abraçar e beijar pouco. Na catedral da solidão bem vivida olho meus amigos nos olhos e basta. Não posso negar, porém, que me acontece de enviar a algum amigo, depois de meses ou anos, alguma mensagem singela começando assim:
– Tens razão...
Afinal, quem se importa com o preço do óleo cru na Indonésia?