Juremir Machado da Silva

Gotas de infâmia política

Aprende-se muita coisa prestando atenção a belas frases e tentando ir além delas.

Uma boa frase pode ser uma ponte para o abismo ou uma passarela para a libertação.

Aprendi que há sempre uma gota de sangue em cada poema. Há sempre um poema em cada gota de sangue. Há sempre um grito parado no ar. Há sempre uma gota de esperança em meio às balas perdidas da nossa guerra civil cotidiana jamais declarada oficialmente. Há sempre uma vírgula em nossos mais sagrados combates. Combate-se a corrupção, mas não toda, não de todos, não da mesma forma em relação a todos, não com a mesma pressa ou firmeza para todos.

Há sempre uma expectativa quando os dados são lançados mesmo sabendo-se que um golpe de sorte ou de azar não abole o acaso. Há sempre um amor perdido por trás de um olhar que não acha o seu foco ou encontra luzes e sombras na opacidade transparente da janela do ônibus.

Há sempre uma vontade renovada de viver sob a melancolia e o cansaço dos que lutam contra moinhos de vento e tentam mover forças do sul com ventos do norte ou vice-versa mesmo que no Brasil o vice não verse, mas converse e, ainda que faça versos, desconverse e despoetize a política e a aposta em dias melhores pelas vias transversas do voto.

Há sempre uma descoberta: O brasileiro é antes de tudo um sobrevivente da sua quase tragédia diária. Quando escapa do ladrão, cai na mão dos políticos. Ai, que preguiça, é preciso ser forte, levantar a poeira e dar a volta por cima, matar um leão a cada dia, mesmo sabendo que o leão também é vítima e que deve ser preservado. Há sempre um grito preso na garganta, uma injustiça a ser denunciada, um grito a prender na garganta para evitar a degola das verdades ditas numa época de pós-verdade em que a melhor estratégia é o silêncio covarde. Há sempre uma razão para calar mesmo que o silêncio cale nas almas como uma confissão gritante de desengajamento e de omissão.

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é? Certamente embora pareça a muitos que só há dor para uns e só delícia para outros. Sim, o mundo é um moinho que tritura utopias, princípios, sonhos e ideologias. Nonada, é só a vida vazando. Há sempre um rio passando pela infância mesmo de quem não teve infância nem rio em sua cidade. Nossa dor é perceber que apesar de tudo que sonhamos e merecemos ainda seremos por muito tempo os enganados ou esquecidos da emancipação. Há sempre um desencanto por trás de cada voto jogado fora e um novo encantamento em cada devoto do amor pela vida, que se renova como as estações. Há sempre uma primavera com seu cortejo de flores para apagar a umidade dos dias passados à sombra do inverno. Há sempre uma crônica, talvez piegas, para quebrar a dureza dos fatos e manchetes e tentar arrancar o leitor pelos cabelos da sua prostração natural.

Há sempre um poeta maldito tentando nos salvar do prosaico da existência, sempre uma canção para ser ouvida de olhos fechados, sempre uma lembrança a ser vivida de olhos abertos, sempre uma revolução a ser feita ainda que seja saboreando lentamente um gole de vinho, sempre uma declaração de amor a ser dita na calada da noite. Há principalmente uma gota de infâmia em cada artigo da reforma política em curso na Câmara dos Deputados. Sangram a democracia, a decência e a política.

Que importa? A caravana passam enquanto políticos ladram.