François Hollande e Nicolas Sarkozy representaram na eleição francesa duas visões claras de mundo. Mais clara ainda só a visão constrangedora de Marine Le Pen, que seduziu quase 20% de desesperados ou de reacionários franceses, essas pessoas que enxergam no simplismo dos extremos uma definição categórica daquilo que imaginam ser a explicação das coisas.
A vitória de Hollande é a de uma ideologia, aquela que vê a sociedade como uma totalidade à serviço da qual deve estar o Estado, um Estado que deve buscar o bem-estar social e promover o desenvolvimento em favor de todos.
Hollande, ao se posicionar contra a austeridade, falso nome da socialização dos prejuízos produzidos pela especulação financeira, defende uma política de interesse coletivo.
Sarkozy, ao longo do mandato, baixou impostos dos ricos e aumentou impostos dos menos ricos.
Na campanha, resvalou para o passado, voltando a namorar com a extrema-direita.
Não colou.
Um novo tempo começa: o pós-neoliberalismo triunfante.
Dará certo?
Como saber?
Certo é que o modelo dominante nos anos 1980 e 1990 entregou os pontos.
A França não se entrega.
Contra ventos e marés, continua sustentando uma ideia republicana de sociedade.
A partir de agora, para acertar ou errar, a esquerda estará no poder.
A direita, na oposição.
Eis uma das qualidades de um regime parlamentarista, livre das mazelas do presidencialismo de coalizão.
Há, como se sabe, outros problemas. O presidente pode dissolver a Assembléia Legislativa e convocar eleições em busca de uma maioria. Se perder, a direita fará o primeiro-ministro e estará no poder, com a esquerda devolvida à oposição. Num caso desses, o presidente vira rainha da Inglaterra. Em qualquer caso, um lado governo, enquanto o outro faz oposição.
Na velha França, que não chama rato de mouse, eleição, em qualquer nível, é o momento da expressão da ideologia, que se apresenta sob a forma de projetos, programas, propostas de gestão, maneiras de organizar a sociedade.