Juremir Machado da Silva

Meu leitor mais fiel, detalhista e generoso

O PENSAMENTO DO COMEÇO DO SÉCULO

Eron Duarte Fagundes

Crítico de cinema e literatura

É uma honra para a língua portuguesa, neste começo do século, abrigar um pensador tão agudo quanto Juremir Machado da Silva, um gaúcho que vive em Porto Alegre, nasceu em Santana do Livramento e já habitou em outras quadras um dos centros culturais do mundo, Paris, na França. Disfarçado de cronista de jornal, o que Juremir faz é o que todo grande pensador faz de Platão e Montaigne e a Edgar Morin: instar com o leitor para pensar. A orquídea e o serial killer (2012) é uma reunião de suas crônicas mais recentes; e, como se vê, a pena de Juremir nada teme, do sentimental do cotidiano (“Uma perda”) às discussões mais sofisticadas e por isso menos aplaudidas (“Dois polímatas”); volto à frase inicial, insisto, aperfeiçoo a ideia, a língua portuguesa tem no verbo de Juremir um dos mais notáveis ninhos, rigor, beleza, profundidade, elementos que nem as necessidades corriqueiras do jornal e  as transformações que ocasionalmente as décadas possam ter feito em seu texto logram diminuir. O prosador Juremir continua o mesmo poeta tenso e delirante daqueles anos (seus começos) em que escreveu um necrológio tardio para a poetisa  Ana Cristina César. A orquídea e o serial killer abre com “Pós-Drummond”, uma poesia; na verdade, a poesia é a base de todas as construções sintáticas, morfológicas e semióticas de Juremir, um arguto e crítico leitor de gente como Vinicius, Drummond e Rimbaud. Há muitos anos, logo depois duma famosa polêmica jornalística em que Juremir se envolveu, uma velha amiga me disse: “Juremir, chegando da França, se julgava o ‘enfant terrible’ de nossa província e quis pôr em prática este conceito”. Mais recentemente, quando referi elogios habituais e naturais a Juremir diante dum jovem amigo que levava em conta meus chutes literários e cinematográficos, este amigo se surpreendeu, pois, lendo esporadicamente uma crônica ou outra do autor de Cai a noite sobre Palomas (1995) e alguma notícia veiculada por aí sobre o escritor, via em Juremir alguém que se metia puerilmente em broncas com gente famosa. Mas o essencial, ao que parece, o mundo contemporâneo de Juremir não sabe ver: a língua portuguesa à brasileira em Juremir atinge uma profundidade de pensamento que, pela leitura de outros escritores brasileiros da atualidade, pareceria impossível, como ele próprio escreve dos textos do argentino Jorge Luis Borges — “o argentino consegue o que parece impossível”.