Muhammad Ali e Pelé

Muhammad Ali e Pelé

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Morreu Muhammad Ali. Um ídolo, um herói, um esportista e um líder cidadão.

Um nome adotado para se livrar do seu nome de escravo, Cassius Clay.

Ali trocou de nome e de religião. Converteu-se ao islamismo.

Tornou-se ídolo num esporte violento, o boxe.

Foi tricampeão. O melhor de todos no seu campo. Uma lenda, um estilo e uma narrativa.

Não bastasse o brilhantismo nos ringues, o homem foi melhor ainda.

Virou ativista político na luta contra o racismo. Aproximou-se de Malcolm X e passou a combater o pior dos inimigos, a segregação racial praticada na "pátria da liberdade" há menos de 50 anos.

Teria jogado a sua medalha olímpica num rio em protesto contra o preconceito racial.

Recusou-se a lutar  no Vietnã. Por que iria matar inocentes? Foi condenado.

Pelé declarou que Ali era seu amigo, seu ídolo e seu herói.

Por que Pelé nunca foi como Ali? Por que se restringiu a ser ídolo nos gramados?

Pelé foi um atleta excepcional. Atuou num esporte de paz. Fez maravilhas. Foi três vezes campeão do mundo. Dois negros, dois mundos, duas Américas. Um só preconceito. O racismo. Por que Pelé, o melhor de todos no seu campo, não se tornou a voz dos negros no Brasil do racismo cotidiano?

Uma questão de personalidade? O homem do apelido não precisou trocar de nome. Terá isso definido sua assinatura? Terá o racismo (mal)dissimulado do Brasil enganado Pelé, fazendo-o pensar que vivia, de fato, numa democracia racial? Terá faltado a Pelé um Malcolm X para lhe iluminar o caminho? Teria Pelé sido diferente se o Brasil adotasse os mesmos costumes segregacionistas dos Estados Unidos?

O racismo no Brasil persiste. O silêncio de Pelé também.

Pelé fez muito. Ser Pelé já é enorme. Por que não fez mais ainda? Por que não se tornou líder?

Muhammad Ali foi o maior de todos. O líder negro que ampliou seu campo de luta.

Pelé ainda pode fazer mais um gol. Um gol de placa contra o racismo.

A bola está com ele.