– Não generaliza
Sei que implico com quem diz “não generaliza”. É uma das generalizações mais improcedentes cometidas pelos críticos das generalizações procedentes ou pertinentes. Sem generalizações, morreríamos de gripe, de dengue ou de qualquer doença barata cuja cura depende de observação, sistematização e universalização. A generalização pertinente, repito, é a base da ciência. As pesquisas eleitorais baseiam-se em generalizações de tendências. Erram quando manipulam dados ou têm falhas de metodologia. Acertam, para espanto de ingênuos, de ignorantes e até de pessoas aparentemente críticas.
– Duvido que se possa acertar a tendência de voto de cem milhões eleitores com base numa amostragem de três ou quatro mil pessoas.
– Também duvido. A prova é que, volta e meia, erram feio.
– Tem cada coisa.
– Imagina. Dizem que o homem pisou na lua.
Pois o homem pisou na lua. Não foi uma ficção de Hollywood. E as pesquisas acertam. A estatística, bem aplicada, funciona.
– Para mim tudo isso é enganação.
– Não generaliza.
– Não generalizo. Sou contra as generalizações das pesquisas.
A generalização é um procedimento indutivo. Se só vejo cisnes brancos, concluo que não existem cisnes negros. A realidade ou uma mutação genética podem desmentir essa generalização. Se tomo água todos os dias sem temer morrer envenenado é porque generalizo a partir de comportamentos anteriores. Se deu certo até hoje, a tendência é que continue dando. Vez ou outra, alguém morre. A exceção confirma a regra. Um rei da antiguidade teria morrido de fome por não acreditar em generalizações e por ser muito desconfiado. Mandava um servo provar a comida para evitar um envenenamento. Dava ordens:
– Você provou do lado esquerdo. Prove do lado direito e do meio
Nenhuma amostragem parecia-lhe segura. O servo era obrigado a raspar o prato. Traziam outro. Tudo se repetia. Morreu à míngua.
– Já provei, majestade. Não tem veneno algum.
– Não generaliza. Você provou um bocadinho. E os outros?
Um cético implicou com as formigas do seu pátio.
– Tenho medo que me transmitam dengue.
– Não se preocupe, Seu Mário. A dengue é com um mosquito.
– Não generaliza. E se alguma formiga tiver esse poder?
– A ciência garante, seu Mário.
– Não generaliza. A ciência examinou todas as formigas?
O cara que diz “não generaliza”, com boas intenções, generaliza sem o saber por economia de palavras. Ele deveria dizer bem mais:
– Não generaliza impertinentemente.
– Como sabe que é impertinente?
– Deixa de ser impertinente.
– Você é que está sendo impertinente.
– Ora, não generaliza.
Essas discussões sobre generalizações tendem a acabar mal.
– Todo cara que diz “não generaliza” é mala.
– Ah, para, não generaliza.
– Mala!
Descartes generalizava. Era uma questão de método.