Juremir Machado da Silva

O antissemitismo foi o mal do século XX

Cada século tem o seu mal supremo.

Como se uma época só pudesse ser traduzida pelo que tem de pior.

Como se o pior sempre procurasse na infâmia absoluta a sua paradoxal legitimação.

O mal do século XX foi o antissemitismo.

Um mal ainda não erradicado do mundo. O mal do século XIX foi a “cientificização” do racismo em todas as suas facetas, especialmente em relação aos negros e aos mestiços. Século de Arthur Gobineau, Agassiz, Cesare Lombroso e, no Brasil, Nina Rodrigues. Já o antissemitismo teve no “Caso Dreyfus”, a condenação injusta, em 1894, de um oficial francês por alta traição em favor da Alemanha, uma amostragem do quanto ainda se alastraria como preconceito. Os pogroms, ondas de perseguição a judeus, na Rússia, entre 1881 e 1884, deram outra mostra do que viria. O século XX conheceria outros pogroms, em 1903, em 1917...

Se o passado havia consagrado a escravidão de negros, justificada, quando conveniente, pela suposta inferioridade racial, como apogeu da infâmia, ninguém poderia imaginar que o racismo viesse a conceber a eliminação industrial de judeus em campos de concentração pelo inominável instrumento das câmaras de gás. Os 70 anos da liberação do campo de concentração de Auschwitz estão avivando a memória global sobre os horrores ainda tão recentes do holocausto. A judia Hannah Arendt sacudiu o mundo com a sua hipótese sobre a “banalidade do mal”. A humanidade é capaz de produzir burocraticamente o mal que a enxovalha. A burocratização e a banalidade do mal só acentuam a monstruosidade dos nazistas. O século XX foi manchado para sempre pelo antissemitismo transformado em máquina de humilhação, segregação e de matar.

Máquina da barbárie.

O antissemitismo – uma das formas mais hediondas e persistentes do racismo – é uma das maiores chagas da história da humanidade. Um dos livros mais tristemente emocionantes que leio e releio é o clássico, É isto um homem?”, do italiano Primo Levi, relato da sua passagem pelo campo de concentração de Auschwitz Monowitz. Quando li esse livro pela primeira vez, não acreditei. Chorei na solidão do meu quarto de estudante no Partenon. Essa obra deveria ser leitura obrigatória em todos os cursos de ciências humanas. O incrível é que foi recusado por várias grandes editoras italianas, inclusive pela importante e antifascista Einaudi. Saiu, em 1947, pela pequena editora de Franco Antonicelli. Tiragem inicial: 2500 exemplares.

As vendas, em dez anos, foram ainda mais modestas: 1500 exemplares. Levi achava que as pessoas não queriam pensar num passado tão recente e doloroso. Em 1958, o livro foi, finalmente, publicado por Einaudi e virou referência mundial. O antissemitismo está sempre à espreita. Existe antissemitismo de direita e de esquerda. Há quem transforme a competência de judeus em muitos campos em motivo para renovar e destilar antissemitismo. O conflito israelo-palestino, quando mal-interpretado, também é apropriado pela torpeza antissemita. A sombra de Auschwitz obriga a humanidade a refletir sobre o seu maior paradoxo: a ciência e a tecnologia avançam, o racismo, uma das mais primitivas formas de ignorância, permanece.

O século XXI ainda precisa erradicar os males dos séculos XIX e XX.

Uma espécie de lei histórica indica que o mal de um século precisa de outros dois para ser eliminado.