Juremir Machado da Silva

O homem que não conseguia mentir

João raramente mentia para as mulheres. Elas também quase não mentiam para ele. Era um caso de sinceridade recíproca por falta de oportunidades para qualquer deslize ético. João era enfadonhamente sincero. No bar do Zé, os amigos não o perdoavam. Era só bullying.

– Conta uma mentira, João, vai.

O pobre do João bem que queria, mas não era do seu feitio. A gozação implacável não o tirava do sério, mas bem que o entristecia.

– Conta aí, João, vai, você já mentiu para uma mulher?

Não, João não podia dizer que sim. Qualquer tentativa de mentir o fazia ficar rosa. Não ficava vermelho. Ficava simplesmente rosado. Se não conseguia mentir para os amigos nem para as mulheres, João vivia mentindo para si mesmo. Era o maior mentiroso que conhecia. Um dia, no Bar do Pedro, João não suportou a pressão e desabafou:

– Sou um baita mentiroso!

– Para com isso, João. Não mente.

– Viram! – exultou João.

– O quê? – ecoaram os amigos.

– Vocês reconhecem que eu minto.

Era verdade. Quer dizer, era verdade que os amigos tinham caído em contradição, mas também era mentira que João estivesse mentindo, pois, na verdade, estava falando a verdade: mentia muito para si.

Que mentiras João contava para si mesmo? Uma quantidade enorme, das mais corriqueiras às mais sofisticadas. Diante do espelho, dizia:

– Vou pegar a Bruna Marquezine.

Na terapia, João relatava as mentiras que contava para si. O terapeuta acabava por confundi-lo, ou por irritá-lo, desmentindo-o:

– Não é mentira, João. Você acredita mesmo que vai pegá-la.

João sabia que era mentira, mas não tinha como provar. Era a palavra dele contra a do terapeuta, que o conhecia bem, talvez até melhor do que ele mesmo se conhecia. João falava a verdade até quando mentia. Indignado, João resolveu mudar de vida. Ia mentir. Reuniu os amigos no bar do Zé, tomou um ar sério, quase choroso, e mandou ver.

– Hoje eu vou mentir para vocês.

Era a mais pura verdade. A turma desatou a rir. Não por terem compreendido o paradoxo, mas por não acreditarem. Pediram mais cerveja. Brindaram. João ainda tentou falar. Ninguém mais o ouviu. Em voz baixa, como se estivesse na terapia, João acabou por dizer:

– Se eu conseguisse mentir, tenho certeza de que seria feliz. Ou poderia me candidatar.