Juremir Machado da Silva

Perdigotos de ideologia

Nas areias cariocas, vendo passar deusas, penso em ideologias.

Sou objetivo, neutro, imparcial, frio, não me deixo seduzir pela vil matéria.

Penso no espírito.

Felicito o STF por sua acertada decisão de manter os poderes do CNJ.

Mostro a língua para a entidade brasileira dos magistrados, templo maior do corporativismo, que mesmo derrotada, faz pose e ainda espera virar o jogo.

É nisso que penso enquanto passa uma morena de tremer o Vidigal.
Atrás, capaz de produzir um tsunami, vem uma loura.

Leio jornais, penso em ideias, mantenho a concentração.

Ouço uma conversa.

Um vizinho barrigudo, vermelho de sol e excitação ideológica (esse detalhe não altera o conteúdo e, portanto, não deveria ser mencionado, salvo para dar cor local e verossimilhança ao episódio), diz para outro ainda mais barrigudo:

– Odeio ideologia. Dilma tinha que ter detonado essa ilhazinha comuna, atrasada, nojenta, perebenta [ele falou isso mesmo coçando uma micose e anacrônica.

– Essa sua posição, Chicão, não é ideológica também?

– Pelo amor dos meus filhinhos, claro que não. É a realidade, a verdade nua e crua. Ideologia é acreditar nesses comunas vagabundos que andam por aí atrapalhando o progresso, subvertendo a ordem, enchendo os tubos, falando asneiras.

A conversa estava boa. Saltavam-lhe da bocarra perdigotos ideológicos. Quer dizer, anti-ideológicos. Foi aí que me desconcentrei. Devo ter perdido o melhor.

Cinco expressões do capitalismo carioca avançavam para o mar num doce balanço de acordar Tom e Vinicius nos seus túmulos certamente muito animados.

Seriam alunas da Cândido Mendes?

Não, certamente não eram.

Não vi canga alguma.

O gordo anti-ideológico insistia:

– Se tem uma coisa que não sou é ideológico.

Uau!