Nas areias cariocas, vendo passar deusas, penso em ideologias.
Sou objetivo, neutro, imparcial, frio, não me deixo seduzir pela vil matéria.
Penso no espírito.
Felicito o STF por sua acertada decisão de manter os poderes do CNJ.
Mostro a língua para a entidade brasileira dos magistrados, templo maior do corporativismo, que mesmo derrotada, faz pose e ainda espera virar o jogo.
É nisso que penso enquanto passa uma morena de tremer o Vidigal.
Atrás, capaz de produzir um tsunami, vem uma loura.
Leio jornais, penso em ideias, mantenho a concentração.
Ouço uma conversa.
Um vizinho barrigudo, vermelho de sol e excitação ideológica (esse detalhe não altera o conteúdo e, portanto, não deveria ser mencionado, salvo para dar cor local e verossimilhança ao episódio), diz para outro ainda mais barrigudo:
– Odeio ideologia. Dilma tinha que ter detonado essa ilhazinha comuna, atrasada, nojenta, perebenta [ele falou isso mesmo coçando uma micose e anacrônica.
– Essa sua posição, Chicão, não é ideológica também?
– Pelo amor dos meus filhinhos, claro que não. É a realidade, a verdade nua e crua. Ideologia é acreditar nesses comunas vagabundos que andam por aí atrapalhando o progresso, subvertendo a ordem, enchendo os tubos, falando asneiras.
A conversa estava boa. Saltavam-lhe da bocarra perdigotos ideológicos. Quer dizer, anti-ideológicos. Foi aí que me desconcentrei. Devo ter perdido o melhor.
Cinco expressões do capitalismo carioca avançavam para o mar num doce balanço de acordar Tom e Vinicius nos seus túmulos certamente muito animados.
Seriam alunas da Cândido Mendes?
Não, certamente não eram.
Não vi canga alguma.
O gordo anti-ideológico insistia:
– Se tem uma coisa que não sou é ideológico.
Uau!