Juremir Machado da Silva

Sair do lugar ou viajar no cotidiano

Vamos ao que interessa. A vida é feita de trocas. É um interminável toma-lá-dá-cá. Alguns mais tomam do que dão. Outros, mais dão do que tomam. Outros, ainda, dão e tomam com a mesma desenvoltura e o mesmo gosto. É do jogo. Ao menos, é o que diz o que sai na frente, salvo quando estar na frente cria alguma tensão na retaguarda. Dito de outra maneira, pois são muitas as maneiras de dizer o que se coloca à frente ou atrás, tudo é questão de posição.

Não deixa de chamar a atenção o fato de que se costuma ter lugar na mesa e na cama. Há quem aceite trocar de posição, mas não de lugar. Até morador de rua tem lugar: a mesma árvore, a mesma marquise, o mesmo pedaço de calçada. Mudar de lugar mexe com a postura corporal e mental das pessoas. Vi um cara dar cambalhotas para não sair do lugar. Por que essa obsessão pelo lugar? Tem gente com muito dinheiro que vai todo verão à mesma praia.

- É o meu lugar.

- Como assim? Nunca foste a outro lugar.

- Por isso mesmo.

- Por isso mesmo, uma pivica.

- Essa é do meu lugar.

- Qual?

- A pivica.

Impossível ter referência quando não se sai do lugar. O louco Ludopédio, centroavante do Palomas F.C., definia-se:

- Sou um errante. Nunca acerto o meu lugar.

O lugar é um território imaginário.

Ainda não inventaram GPS para a geografia afetiva.

Quem vai ao ar perder o lugar.

Mas ganha outro. Um assento nas nuvens.