Juremir Machado da Silva

Teoria da justiça e justiça na teoria

John Rawls era liberal.

Um homem discreto.

Nunca imaginou que seu livro, “Uma teoria da justiça”, faria tanto sucesso. Para muitos, especialmente seus críticos, ele era um homem banal e até enfadonho. Há quem resuma a sua contribuição para a filosofia política em três termos: justiça como equidade. Um adversário dele, praticante de trocadilhos infames, com o perdão do pleonasmo, teria exclamado:

_ Justiça como equidade é dose pra cavalo.

Infame e incorreto na raiz. Rawls entendia que uma sociedade só pode funcionar bem se ela for equilibrada. Na base, é preciso equilibrar igualdade e liberdade. Tarefa difícil. Se uns tem muito ou tudo e outros pouco ou nada, é grande a possibilidade de anomia. Como ser livre sem meios? Como ter segurança num mundo em que a maioria vive na insegurança ou na certeza da incerteza quanto ao amanhã? O problema seria que cada um de nós no cotidiano tende a pensar apenas na sua posição no sistema: o que é meu? Se mudar, o que eu terei?

Idealista, ingênuo ou esperançoso, Rawls imaginava ser possível ir além da “posição original”. Ou seja, postular uma sociedade melhor onde, no momento da projeção, não se saberia a posição a ser ocupada no novo cenário. Podemos imaginar um mundo melhor para todos, com liberdade e igualdade, sem ter clareza do lugar que ocuparemos? E se eu perder? Podemos todos ganhar mesmo que, em princípio, alguém tenha alguma perda? Uma perda contingente e particular em relação a um ganho necessário e global? A justiça deve buscar a equidade social. Eis.

As ideais liberais sociais de Rawls incomodaram muita gente. Ele achava que a sociedade deveria ajudar os menos aquinhoados a ter mais oportunidades. Ter talento para ele não era mérito, mas sorte, produto de uma espécie de “loteria natural”. Claro que o talento deve ser recompensado por trazer benefícios à sociedade mesmo não sendo fruto do mérito. Pode-se com trabalho aprimorar o talento. Não se pode inventá-lo. Ninguém se tornará Beethoven ou Pelé só por treinar bastante. Deveria existir um limite para a recompensa ao talento natural? Rawls entendia que sim. Em contrário, haveria desequilíbrio sopcial. Os liberais puros e duros não gostaram nada dessa ideia.

Só o “véu da ignorância”, abstração imaginada pelo teórico, permitiria pensar o futuro sem levar em consideração o presente. As sociedades que, de algum modo, equilibram igualdade, liberdade e equidade, mesmo sem pensar nas ideias de Rawls, são as que vivem melhor do ponto de vista de todos os seus cidadãos. Nelas, só se proíbe o que causa danos a terceiros. Um princípio deve regular o outro. Devemos buscar o maior grau possível de respeito à diferença desde que essa diferença não venha a lesar a singularidade de alguém.

Ler Rawls conduz a perguntas simples e delicadas: pode funcionar bem uma sociedade em que juiz tem auxílio-moradia, mesmo ganhando bem e tendo casa própria, e muita gente não tem onde morar, levando muitas vezes o juiz que ganha auxílio-moradia a ter de determinar o despejo de uma família sem um teto por ter ocupado, o que será visto como invasão, uma propriedade sem uso? Rawls era um liberal. Homem livre. Dizia o que pensava e pensava o que dizia.

O que diria da justiça brasileira?

O que diria de Sérgio Moro?

O que diria do STF?

Talvez preferisse não se pronunciar.