Juremir Machado da Silva

Velho Senado sem guerra

O Senado nunca foi a casa do povo.

Muito menos do novo.

É somente um valhacouto  de "nobres".

Viajemos no tempo.

Ofereço um fragmento de Raízes do conservadorismo brasileiro: a abolição na imprensa e no imaginário social: “A aprovação da lei Áurea teria acontecido, segundo muitos relatos, por unanimidade no Senado. A Gazeta da Tarde, no entanto, na sua página 2, de 13 de maio de 1888, registrou seis votos contrários: ‘votaram contra o projeto os Srs. Paulino de Sousa, Cotegipe, Belisário, Pereira da Silva, Ribeiro da Luz e Diogo Velho’. O Correio Paulistano de 15 de maio de 1888, diz em telegrama do presidente do Conselho ao vice-presidente da província de São Paulo: ‘Já é lei do Estado, contra 9 votos na Câmara e 5 no Senado, a resolução que extingue a escravidão’. Imenso júbilo popular”. O Senado sempre faz das suas. Pelo ritual e pela ordem.

Mais um pedacinho: “O ministro da Agricultura, Rodrigo Silva, determinava: ‘Está sancionada a Lei extinguindo a escravidão no Brasil. Providencie para que seja executada desde já’. O Diário de Notícia, de 13 de maio de 1889, afirma: ‘Não havendo mais quem peça a palavra, encerra-se a discussão. O sr. Presidente consulta o senado se acha a matéria suficientemente discutida. O senado resolve afirmativamente. Posta a votos, foi a proposta aprovada, tal qual veio da câmara, pela quase unanimidade do senado, votando contra apenas quatro senadores’. Rodrigo Silva era o mesmo que em 1870 defendera que os interesses da agricultura eram os interesses da sociedade brasileira e ponto final e que em 1886 mandara matricular, em Campos, no Rio de Janeiro, 14 mil homens livres como escravos, sendo desautorizado pelo Senado”.

Vez ou outra, o Senado se emendava.

Enfim: “Quem eram os renitentes que não se importaram, mesmo sabendo da derrota, em entrar para a história como defensores de uma instituição liquidada moralmente e deslegitimada pelos melhores pensadores?  Paulino de Sousa e Cotegipe representaram os interesses rurais escravistas com grande destaque. Paulino cedeu menos ainda do que Cotegipe à vaga abolicionista. A Revista Illustrada, na edição de 3 de março de 1888, afogou Paulino numa comparação impiedosa: ‘Um espirituoso articulista, estudando a política do Sr. Paulino, no Rio de Janeiro, compara-a com a história de uma Mrs. Paddington, uma velha que morava à beira-mar e que possuía uma vassoura, que era um terror doméstico. Marido, filhos e servos, todos tremiam diante do instrumento da temível dama. Uma vez, porém, subindo a maré, e invadindo-lhe a casa, ela empunhou a vassoura e começou a varrer as ondas, furiosamente, para fora... E, quantas mais vassouradas distribuía, para a direita e para a esquerda, mais a água se agitava e mais a casa era invadida’”.

Paulino e os seus amigos varriam ondas.

Senadores, em 2017, gostariam de votar secretamente para salvar um colega, membro da elite, de ser varrido pela onda da transparência. Como no final do século XIX, porém, algo se quebrou. A velha ordem finge se manter inabalável, mas sente o mar entrando por todos os lados.

Romero Jucá, em 1888, teria sido certamente o sétimo da lista.

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Hoje, estarei em Garibaldi como patrono da Feira do Livro