Por Manu Couto (Ufrgs) e Maria Luiza Rocha (PUCRS)*
Milhares de pessoas passam todos os dias pela Feira do Livro de Porto Alegre, andando de um lado para o outro, em meio à agitação de quem vem de todos os cantos da cidade e do Estado em busca do livro que complete uma parte de si. De banca em banca, folheando livros dos mais diversos temas - científicos, romances, quadrinhos, ficção, não ficção e autoajuda - a lista é imensa. A literatura queer, feita por e para pessoas que não se encaixam nos padrões clássicos de sexualidade e gênero, vem ganhando cada vez mais visibilidade, conquistando espaços também em eventos tradicionais como a Feira do Livro.
Na banca da Dublinense, editora independente gaúcha, o movimento de pessoas que buscam obras escritas por autores queer é grande, segundo a livreira Alice Elnecave. “Eu acho que uma das coisas mais legais de estar aqui na Feira é ver também como, de certa forma, a banca da editora virou uma referência para quem está em busca de livros sáficos (mulheres que se sentem atraídas por mulheres). Eu acho que isso, com certeza, tem uma influência muito grande da Natália Polesso, porque ela é autora do Amora”, relata. A obra da escritora gaúcha é uma das que mais vendem.
O crescimento desse nicho na Feira só é possível por conta de quem está por trás de tantas obras incríveis: as escritoras. Natalia Borges Polesso, assim como Cris Judar e Gabriela Richinitti, são apenas algumas de muitas outras que fazem parte desse meio literário LGBTQIA+. “Eu acho que a Feira do Livro - faz parte da característica dela, e isso é muito legal - é esse caldeirão de informações, de autorias, de conteúdo, de várias formas de linguagem, inclusive, não só do texto, do livro impresso”, diz a escritora porto-alegrense Dani Langer.
DESAFIAR PRECONCEITOS
Ainda que existam avanços, os escritores queer ainda esbarram em velhos obstáculos, como o preconceito e a representação limitada de personagens LGBTQIA+ na literatura. “A gente tem algumas obras de autoria não-binária, e daí quando a gente publicou uma das obras, a pessoa ainda usava um nome e depois da transição adotou outro. Então eu sinto que as pessoas às vezes ficam meio confusas, perguntando se é nome artístico”, conta a livreira Alice.
A dúvida pode gerar o preconceito. Contudo, a presença de obras queer na Feira do Livro ajudam a esclarecer essas questões, levando essa literatura aos mais diversos públicos e levantando o debate sobre essas pautas.
“Quando, hoje, a gente para pra pensar que existe a possibilidade de trazer convidados do Brasil todo para um evento como a Feira do Livro de Porto Alegre, e esses convidados são pessoas trans, a gente está criando esse novo imaginário coletivo, de que agora sim é possível ocupar esses lugares. A Feira, então, começa a ser um aliado ao combate desses preconceitos”, diz Agni Santos, mediadora do clube de literatura trans que acontece na Livraria Baleia, que surgiu a partir da provocação e necessidade de ler mais autores trans.
IR ALÉM DA IDENTIDADE
Agni acredita que a conquista desses espaços não se dá apenas pela questão de identidade, mas também pela qualidade dos trabalhos realizados por pessoas queer. “Nós, enquanto comunidade LGBT, temos muita capacidade, a gente sabe que tem que entregar o dobro. Eu acho que é um momento oportuno para reconhecerem que existe variedade nessas literaturas. Não é porque uma pessoa é gay que fala só sobre gays, não é porque uma pessoa é lésbica que fala só sobre literatura sáfica, é trans e também só fala sobre literatura trans”, diz.
Dani Langer se inspirou nessa problemática para escrever o livro “Deságua”. “Eu queria muito escrever um romance onde tivesse uma protagonista lésbica em que a sexualidade não fizesse diferença para o conflito”, comenta sobre o processo de escrita. “Isso foi uma escolha super racional, uma escolha estética que eu fiz”.
“Acho que é importante que a gente ocupe esses espaços, que são espaços tradicionais, como a Feira do Livro de Porto Alegre. A gente precisa se colocar nesses lugares para ter mais visibilidade. Obviamente, as pessoas estão mais acostumadas com leituras tradicionais, mais comerciais, mais palatáveis”, diz.
A Feira exercita o papel de divulgar o trabalho dos escritores e escritoras queer, para mostrar ao público que existem e estão presentes, escrevendo obras que circulam pelos mais diversos cantos, criando e praticando a identificação e empatia com pessoas queer.
“Isso está na base da literatura, do fazer literário, esse reconhecimento, a catarse que se dá pelo reconhecimento, e às vezes não porque a personagem, a situação, é exatamente igual à que a gente vive, mas porque tem alguma coisa na literatura que, de certa forma, consegue universalizar esses sentidos”, completa Dani.
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*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier