Oscar Bessi

Só o que restará

Do nada que brotamos ao nada que nos espera. É o que somos. O resto é fantasia efêmera que vestimos para abonar outras faltas, outros anseios, desejos. Quem sabe traumas e rancores. Quem sabe carências.

Chegará um dia, na vida de todos nós, em que bandeira alguma terá forças para tremular. Sem cores destemidas ao vento, sem mastros a desafiar os céus, sem palavras repetidas como cânticos de guerra. Sem intrigas e distorções, fakenews ou notícias repetidas, golpes baixos ou golpes de mestre. Tudo perderá o sentido que até então parecia ser tão pleno e autossuficiente.

E não será por covardia, muito menos indecisão ou por qualquer outro gesto de renúncia que estes símbolos, até então fundamentais para a existência e justificativa neste mundo, repousarão. Mas apenas porque sempre foi assim: nada. E sempre será. Eis a simples e conhecida sina que é de nossa natureza frágil e mortal, o caminho inevitável e misterioso. Mas misterioso só por ser desconhecido nos detalhes do seu durante, e nunca lembrado de como é no início e no fim - onde todos os caminhos, de todos, são sempre iguais. Do nada que brotamos ao nada que nos espera. É o que somos. O resto é fantasia efêmera que vestimos para abonar outras faltas, outros anseios, desejos. Quem sabe traumas e rancores. Quem sabe carências.

Olhe ao redor. O ódio pulsa entre ofensas temporárias. Ofendem-se os que ontem se abraçavam e os que para amanhã reservam uma descarada união. E, à margem dos interesses de uns poucos, os que arrumam o tabuleiro e dispõem as pedras sobre ele, para nele se devorarem, semeiam uma cegueira absurda e coletiva.

O fanatismo dos tolos. Dos que se agridem, dos que nada levam consigo além das feridas. E os comuns se afastam, porque afastados são mais frágeis e fáceis de dominar. Não era para ser assim no coletivo dos racionais. Mas é, e sem se dar ao trabalho de perceber que há sonhos e necessidades tão parecidos que quase poderiam ser chamados de iguais. E só não são iguais por serem humanos. Eis que justamente a maravilha de ser humano é justamente ser ímpar, único e, entretanto, incapaz de ser solitário.

Depois dessas guerras sem sentido deixarem seus rastros de sangue, depois de sentidos os males dos conflitos onde os seus idealizadores saem sempre ilesos, quando as ondas mais altas e bravias sossegarem, uma brisa desconcertante trará aquela sensação incômoda de impotência e inutilidade. A certeza de que suamos e gritamos em vão. De que matamos e morremos por nada.

Gratificante seria dar as mãos. Sorrir. Utópico, feito clichê comercial de pasta de dentes ou margarina, mas tão bom! Os lençóis que cobrem a cama de hospital, onde a mãe recebe uma criança para este mundo, cobrirão amanhã a cama do quarto ao lado, onde alguém precisa doações de sangue para ficar mais um pouco com quem ama. E é apenas isto. Nossa primeira e última bandeira terá, sempre, apenas a cor da vida.