Há algum tempo, parecemos aceitar que a estupidez deixe de ser acidente e passe a ser método. Não é mais um descontrole isolado. É estratégia. De conquista ou marketing. De imposição ou afirmação. Conflitos são resolvidos no grito, na bala, na explosão, como se qualquer diálogo ou resquício de inteligência fosse fraqueza e, a ponderação, nada além de covardia.
Olhamos para guerras envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, e percebemos que por trás dos discursos técnicos e geopolíticos há, muitas vezes, uma pulsão primitiva: impor-se pela força, vencer pela destruição, calar pela intimidação. A estupidez, quando armada, passa a se disfarçar de estratégia. Inocentes são assassinados. Crianças são chacinadas. Os responsáveis dão de ombros, no máximo alegam que foi sem querer, como quem pisou em formigas pelo chão. Por trás de tudo isto, cifras econômicas gigantescas, petróleo, tudo sob a camuflada intenção de defender liberdades.
No Brasil, a estupidez também encontra palco. E não está só no sujeito que invade a propriedade alheia porque acredita que o mundo lhe deve algo, ou na adolescente que comete um crime e grava o próprio ataque para ganhar curtidas. Está no agressor que transforma qualquer desavença em execução sumária. Está no banqueiro que quer calar jornalista fingindo assalto como o pior e mais rasteiro dos mafiosos. Está no sujeito que rotula os outros como seres menores que ele.
A estupidez não é ausência de informação — é desprezo deliberado pela consequência. Ela não quer diálogo, quer espetáculo. E quanto mais barulho faz, mais parece recompensada. Vivemos um tempo em que aparecer vale mais do que construir. E destruir rende mais visibilidade do que preservar.
Resolver conflitos com brutalidade é a forma mais pobre de inteligência. É admitir essa incapacidade humana, que parece virar costume, ou regra, ou moda, de argumentar, de negociar, de esperar. A estupidez é imediatista: ela quer o patrimônio sem trabalho, a razão sem debate, a fama sem mérito. Age como criança mimada com poder nas mãos. E o mais inquietante é que, quando repetida à exaustão, começa a parecer normal.
A invasão vira “movimento”, o ataque vira “resposta”, o crime vira “conteúdo”. A linguagem se contorce para justificar o que, no fundo, é apenas incapacidade de conviver. E um desprezo agudo e ilimitado pela existência humana do outro.
Mas ainda há quem resista à sedução da estupidez. Resistir, hoje, é um ato de inteligência moral. É escolher o caminho mais difícil — o da lei, do diálogo, do respeito ao que é do outro. A verdadeira coragem não reside em ceder ao impulso primário de esmagar para vencer. Porque toda vez que a estupidez se impõe como solução, ela não resolve o conflito: ela o multiplica. E quem pagará a pior conta desse resultado todo serão os herdeiros deste nosso mundo intoxicado de bestialidades.
