Oscar Bessi

A gambiarra brasileira: criatividade que vira método

Da solução improvisada na cozinha à rotina do país, a arte de "dar um jeito" reflete a capacidade de adaptação, mas também a recusa em planejar

Outro dia grudei um preguinho torto na parede da cozinha, perto da porta de saída para os fundos, a fim de pendurar um chaveiro. O antigo (um charmoso livro aberto que comprei em uma tenda de artesanato em alguma feira do livro no interior), como todo material em MDF, já se decompunha pela idade. Era provisório. Coisa rápida. “Depois eu compro um suporte adequado”, prometi a mim mesmo, como quem assina um tratado de paz que sabe que jamais será cumprido. O prego entrou meio de lado, o suporte retangular ficou levemente inclinado e, para completar a obra de engenharia doméstica, enfiei um pedaço de papel dobrado atrás para “dar equilíbrio”. Funcionou. Está lá até hoje, firme há mais de dois anos, sustentado não pela física, mas pela mais brasileira das ciências: a gambiarra aplicada.

O brasileiro tem uma criatividade quase artesanal para resolver problemas com o que há à mão. Um cabo de vassoura vira haste de antena, chinelo arrebentado ganha vida nova com um prego atravessado, a tampa da panela é segurada com alicate porque o puxador caiu “faz tempo”. Nós fazemos “enjambrações” com a naturalidade de quem prepara café. E talvez exista até certa poesia nisso: a recusa silenciosa em desistir das coisas, a capacidade de improvisar pontes onde faltam caminhos. O problema é que, muitas vezes, o improviso deixa de ser emergência e vira método.

A gente empurra soluções definitivas para um amanhã que nunca chega. Resolve-se o vazamento com balde, o relacionamento com silêncio, a saúde com um comprimido qualquer indicado pelo vizinho. No trabalho, cria-se um remendo provisório no sistema, um atalho no processo, uma adaptação aqui, outra ali, até que ninguém mais saiba onde termina a estrutura original e começa o puxadinho moral da rotina. O provisório ganha raízes profundas. Há empresas funcionando à base de fita isolante emocional e repartições inteiras sustentadas por clipes invisíveis.

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Talvez seja por isso que o país tantas vezes pareça um grande móvel montado sem manual, equilibrado num piso torto. Nós nos acostumamos tanto a sobreviver improvisando que, por vezes, perdemos o hábito de planejar. Troca-se projeto por urgência, manutenção por remendo, reforma por maquiagem. E assim seguimos, admiravelmente criativos, heroicamente adaptáveis, mas frequentemente incapazes de enfrentar a origem dos problemas. Somos mestres em fazer funcionar o que já deveria ter parado há muito tempo.

Ainda assim, confesso: há algo de enternecedor nessa nossa aritmética torta. Porque a gambiarra também revela esperança. O brasileiro olha para o caos e pensa: “dá pra dar um jeito”. E dá. Quase sempre dá. O perigo é quando passamos a acreditar que o jeito basta, e esquecemos que algumas coisas da vida — paredes, afetos, casas e cidades, vidas e países — mereciam, ainda que lá de vez em quando, menos improviso e mais alicerce.

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