Estou entre os que preferem o frio. O que, por parte de alguns amigos, gera críticas, até protestos. “Fosse morador de rua, tu pensarias diferente”. Talvez seja verdade, reconheço. Como também admito que este nosso frio, cá do sul, apesar de ser o máximo em termos de Brasil, seja nada em comparação àquele que soterra cidades inteiras sob camadas gigantes de neve. É fácil simpatizar com o que é ameno ou tolerável. Nossa neve ainda é um evento raro e rápido (digo “ainda” porque, com esse desequilíbrio ambiental, nunca se sabe). Nosso frio não causa os graves transtornos de lá.
É que o frio tem uma elegância antiga. Talvez porque obrigue o homem a diminuir o passo. No verão, as pessoas parecem sempre atrasadas para alguma coisa: o suor escorre antes do pensamento, os ônibus cheiram a fadiga, as cidades fervem como panelas esquecidas no fogo. Já o frio não. O frio pede pausa. Um café mais demorado, uma conversa perto da janela precisando de qualquer nesga de sol, um silêncio coberto por manta. Reflexões. Há qualquer coisa de literário em ver a fumaça do chimarrão subindo no começo da manhã enquanto a rua ainda boceja cerração.
Mas é claro, o frio também revela. Ainda que possa ser minimizado com roupas grossas e quentes – coisa impossível de se fazer na temperatura contrária, onde nem “arrancando a pele” passará o calor -, ele mostra quem tem casa e quem apenas tem noite. Enquanto alguns escolhem vinhos, casacos e lareiras, há quem escolha marquises menos molhadas para dormir. O frio dói quando se está desprotegido. O inverno é bonito até encontrarmos um corpo tremendo na parada de ônibus. É aí que a poesia perde um pouco da rima. Porque o frio é democrático apenas na temperatura, não no sofrimento. Há quem o transforme em fotografia para rede social. Há quem não sobreviva a ele.
Ainda assim, confesso: temo mais o calor. O calor excessivo enlouquece as cidades. Ele irrita, adoece, seca os rios, apressa violências. O mundo fica curto, áspero, inflamável. Já o frio — mesmo duro — conserva certa humanidade possível. As pessoas se aproximam mais. Emprestam cobertores, repartem sopa, fecham janelas juntos. O calor separa. O frio, às vezes, reúne. O inverno é um sujeito discreto. O verão, um narcisista exibicionista.
E tenho a impressão de que ele, o frio, nos deixa melhores. Ficamos mais solidários. Pensamos mais no outro. Em quantas campanhas de agasalhos nos engajamos? Em quantas sopas comunitárias? Quantas pessoas tiramos das ruas? No auge do verão, não se vê muitos mutirões de água para quem tem sede. Nem campanhas solidárias para arrecadação de ventiladores ou sorvetes. Se no inverno as doenças respiratórias atingem muitos, no verão são as complicações intestinais, viroses, mosquitos, disenterias, comidas que estragam fácil. E pergunte a qualquer policial: no frio, os índices de ocorrência diminuem drasticamente. Se o inverno fosse político, jogaria na boca do vento as estatísticas da sua política de segurança.
Talvez seja por isso que o inverno carregue essa melancolia bonita dos velhos filmes e das antigas crônicas. Ele nos lembra que somos frágeis. E que a fragilidade também pode produzir ternura. O frio, no fundo, é um poeta severo que castiga os desiguais, inspira os solitários e obriga o homem a procurar abrigo. Não apenas nas casas, mas uns nos outros. No fundo, admito que minha ótica é forjada no apreço por cafés, livros, vinhos e outros quetais da estação. E que isto talvez seja mesmo um tanto egoísta. Mas o egoísmo só existirá onde não houver solidariedade. Onde não tivermos a capacidade de enxergar o outro. E tudo, nesta vida, independente de nossos gostos ou opiniões, só será nocivo de fato quando houver o excesso. E onde não houver humanidade.
