Oscar Bessi

A tragédia de Nova Prata e o “fiasco” Bragantino: machismo não poupa ninguém

O machismo sobrevive não apenas nos que falam alto, mas nos que concordam baixo

Sábado. Noite de risos espalhados pela casa, de planos simples que sustentam a vida numa pausa, merecida, às correrias cotidianas de gente que faz a diferença no mundo. Que tem por cacoete lutar por dias melhores aos de sua comunidade. A ex-vereadora de Nova Prata, Roseli Albuquerque — mulher de fala firme, reconhecida no município e no Estado pelo trabalho político e de ação pública dedicado — havia confraternizado, “no aconchego do lar” (como postou em rede social), com família e uma amiga. Um bom vinho e conversa para revisitar o passado com alguém que considerava como irmã. Sem ao menos imaginar que seria uma despedida.

Ela havia combinado com o filho, de 26 anos, autista, que no sábado iriam à Capital assistir, juntos, ao jogo do Internacional. Um pacto de amor cotidiano.

Mas o sábado terminou de forma trágica. O ex-marido, que um dia dividiu o mesmo teto, invadiu seu apartamento, depois de ter lhe subtraído ardilosamente as chaves, dias antes, e tirou-lhe a vida.

Ficou um filho que precisava muito da mãe, desde sempre. Ele ficou esperando pela mãe e pela bola rolando, sem saber que algumas violências não acabam com o apito final.

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Quando uma mulher é assassinada por quem já jurou protegê-la, não é apenas uma tragédia íntima. É um retrato social, e infelizmente o Rio Grande do Sul já registrou 17 feminicídios em 2026. O machismo não começa no ato final, mas muito antes. Começa na ideia de posse, na dificuldade masculina de aceitar o fim e na crença de que a mulher deve satisfação eterna.

O feminicídio é o último degrau de uma escada construída com pequenas permissões culturais: a piada tolerada, o ciúme romantizado e o controle disfarçado de cuidado. Para quem acha exagero falar em estrutura, basta lembrar o que aconteceu após a derrota do Red Bull Bragantino para o São Paulo.

Machismo no futebol

No mesmo sábado, um jogador do Bragantino fez fala machista contra árbitra, afirmando que a federação não poderia colocar uma mulher para apitar um jogo “desse tamanho”. Depois pediu desculpas, mas a frase já estava dita. Não foi um tropeço gramatical, foi um pensamento revelado.

A ideia é que existem espaços grandes demais para mulheres, e que a autoridade feminina é uma exceção tolerada, não uma regra respeitada. Houve notas oficiais e reprimendas públicas. Mas nos bastidores — onde não há câmeras e nem microfones — é difícil acreditar que não tenha havido risos cúmplices, concordâncias sussurradas e tapinhas nas costas.

É assim que o machismo sobrevive: não apenas nos que falam alto, mas nos que concordam baixo. Na cultura que diminui a mulher, que a transforma em objeto, adorno ou figurante num mundo que ainda se imagina masculino por direito natural. É dessa cultura que nascem as violências. Todas elas.

Desde a desqualificação profissional até o tapa escondido, desde a frase que limita até o golpe que cala uma vida. Agora, segue a espera por justiça e por um mundo que aprenda, enfim, que mulher não é propriedade, não é concessão, não é exceção. É sujeito, é cidadã, é vida inteira.

Enquanto o machismo continuar sendo tratado como opinião, e não como raiz do problema, seguiremos enterrando mulheres às pencas e pedindo desculpas, no dia seguinte, com enrolações que não mudam nada.