Certas decisões judiciais podem até parecer tardias, como quem fecha a porta depois de anos fingindo não ouvir o barulho do lado de fora. Mas são absolutamente necessárias. A condenação de dois homens por promoverem “turismo sexual” para estrangeiros ricos, em São Paulo, escancara algo de muito torpe da nossa sociedade que, no fundo, nunca esteve escondido. Essa persistência cruel de uma cultura que trata mulheres como mercadoria, com catálogo, preço e prazo de validade. O nome, neste caso, pode ser sofisticado, quase acadêmico — “coaches de sedução”, “curso”, “experiência”, “imersão” —, mas o conteúdo é velho, vulgar e profundamente violento. É a diminuição da dignidade e da humanidade da mulher.
O requinte do absurdo ganha contornos ainda mais sombrios quando se descobre que, na festa de encerramento do tal curso, mulheres foram usadas como iscas, sem sequer saberem que faziam parte de um “pacote”. Não eram pessoas, eram alvos. “Estratégias”. Não tinham voz, eram cenário. E, como se não bastasse, menores de idade foram levadas ao evento, atravessando a fronteira final da ausência de qualquer respeito com a naturalidade de quem organiza um coquetel. Tudo isso embalado para homens de alto poder aquisitivo, que não compram apenas serviços, mas a ilusão de que tudo, absolutamente tudo, pode ser comprado.
Curioso, e trágico, notar que os organizadores buscavam clientes em países onde os direitos das mulheres são rotineiramente desrespeitados. Como se o Brasil pudesse competir no mercado global da desigualdade, oferecendo não apenas paisagens e hospitalidade, mas também corpos disponíveis. Isso diz muito sobre quem vende, mas diz ainda mais sobre quem compra. E fala muito, em alto e bom tom, e sobre o silêncio confortável de uma sociedade que, muitas vezes, sabe perfeitamente o que acontece prefere não olhar. Ou, pior, adquire o mau hábito de multiplicar e achar normal. Depois, rotular. Como se os nossos males fossem chagas características das camadas mais periféricas ou excluídas de um processo educacional de qualidade. Afinal, é mais fácil condenar o ignorante do que encarar o espelho quando o problema veste terno caro e frequenta ambientes de decisão. E, como pudemos comprovar neste caso, não é bem assim.
E então seguimos, entre campanhas contra o feminicídio e discursos inflamados sobre respeito e menos violência contra a mulher, tentando acreditar que estamos avançando. Mas casos como este lembram que o problema não mora apenas na ausência de educação ou na pobreza, ele também habita salões luxuosos, contas bancárias robustas e círculos de influência. Não é só o olhar equivocado do homem simples, do povo, que é criado e cultivado sob uma cultura tóxica de submissão da mulher. Não, homens que têm poder financeiro para decidir, ou patrocinar decisões neste país, vivem sob o mesmo lixo moral. Combater essa lógica exige mais do que leis e sentenças: exige desmontar a ideia de que alguém pode ser reduzido a objeto. Porque enquanto houver quem compre, haverá quem tente vender. E o preço, sempre, será a liberdade e a dignidade de alguém.
