Os números divulgados pelas operações de fiscalização de alimentos no litoral do Rio Grande do Sul, em 2026, deveriam causar mais indignação do que surpresa. A cada ano, são toneladas de alimentos impróprios para o consumo apreendidas em mercados, açougues, padarias, restaurantes e até depósitos clandestinos. Somam-se a isso toneladas de produtos de origem animal, barradas em estradas e acessos às praias, fruto do transporte irregular e sem qualquer controle sanitário. Não se trata de exceção: trata-se de um modelo de desleixo que se repete, temporada após temporada, explorando o aumento do consumo e a distração típica do veraneio.
É a ganância em seus piores formatos. O lucro, custe o que custar, nem que o preço seja a vida do outro. Nada de diferente dos hediondos casos de adulteração de bebidas alcoólicas com metanol que horrorizaram os brasileiros no ano passado.
Há quem trate esse tipo de crime como simples desrespeito ao consumidor, quase um detalhe administrativo. É um erro grave — e perigoso. Vender alimento vencido, contaminado ou mal armazenado não é só enganar no preço ou na balança: é expor pessoas a riscos reais de intoxicação, infecção e agravamento de doenças preexistentes. Crianças, idosos e pessoas com deficiência ou imunidade reduzida não têm margem para “errar na compra”. Um alimento estragado pode significar uma internação, uma complicação séria ou algo ainda pior. Não é exagero. É saúde pública. É de vidas que falamos.
As fiscalizações mostram também cenas que não cabem em relatórios frios: carnes com sinais de doenças, produtos mofados, bebidas adulteradas, ambientes insalubres, ausência total de higiene. Nada disso acontece por desconhecimento. A maioria dessas práticas nasce da escolha consciente de lucrar mais, gastando menos com cuidado, estrutura e responsabilidade. E aqui cabe uma pergunta incômoda: quantos produtos só foram retirados de circulação por haver fiscalização? Quantos outros passaram, passam e passarão despercebidos para chegarem impunes à mesa de alguém?
Por isso, além de aplaudir as apreensões, é preciso refletir sobre o que elas revelam. A fiscalização cumpre seu papel, mas não pode ser a única barreira entre o descaso e o prato do consumidor. Segurança alimentar exige rigor do Estado, ética de quem vende e atenção de quem compra. Alimento não é mercadoria qualquer. Quando a ganância contamina o que se come, o prejuízo não aparece apenas na estatística — aparece no corpo, na saúde e, às vezes, na vida de quem confiou.
