Quando a gente pensa que todas as notícias tristes já nos abalaram, vem algo bizarro, inacreditável, e nos derruba. E seguem os casos de violência contra a mulher no RS.
Em Tupanciretã, no interior de um assentamento, a polícia encontrou um cenário que parece retirado de um pesadelo medieval, mas é brutalmente atual. Uma jovem de apenas 21 anos estava acorrentada dentro da própria casa pelo companheiro, um homem de 28 anos. Os policiais precisaram romper cadeados para libertá-la. No corpo dela, hematomas. No ambiente, sinais claros de terror. O que deveria ser abrigo virou cárcere. O lar, instrumento de tortura.
O horror se aprofunda quando se olha para quem a mantinha presa. O agressor tem antecedentes por tráfico de drogas, maus-tratos a animais, receptação, corrupção de menores, dano e posse ilegal de arma de uso restrito, entre outros crimes. Um histórico de violência e desprezo pela lei. Ainda assim, estava solto. Livre para amar? Não. Livre para agredir, dominar, ferir, sequestrar. A prisão em flagrante por sequestro, cárcere privado e lesão corporal, no contexto da violência doméstica, conforme foi o enquadramento da PC neste caso, evita um desfecho que obviamente poderia ter sido fatal.
A cena encontrada pela polícia é assustadora e bizarra porque revela até onde pode chegar a escalada da violência doméstica quando os sinais são ignorados. Correntes não surgem do nada. Antes delas, quase sempre, vêm o ciúme doentio, o controle, as ameaças, o isolamento, as agressões “menores” naturalizadas. Cada etapa tolerada empurra a vítima um pouco mais para o fundo do poço — e aproxima o agressor do pior crime.
É preciso louvar quem denunciou. Alguém rompeu o silêncio e salvou uma vida. Mas a pergunta incômoda permanece: quantas pessoas viram, ouviram, souberam de algo e não fizeram nada? O medo, a omissão e a falsa ideia de que “em briga de casal ninguém se mete” também acorrentam. E, muitas vezes, matam.
Agora, além da prisão, vem o desafio mais urgente: proteger essa mulher. Porque a experiência mostra que a cadeia nem sempre é o fim da história. Em algum momento, ele pode estar de volta às ruas — como já esteve, apesar de tantos crimes. O Estado, a rede de proteção e a sociedade precisam agir para que essa jovem não volte a viver sob ameaça. Correntes foram quebradas naquele dia. O que não pode continuar preso é o nosso dever de indignação, vigilância e responsabilidade coletiva.
