Não se sabe ao certo o motivo, ou que grupo humano os inspirou, contratou ou, até, se foi simplesmente algum gesto de desprezo o estopim de tudo. A questão é que bichinhos domésticos decidiram ganhar as ruas numa grande manifestação animal. Mas só alguns, claro, afinal outros precisavam seguir na labuta diária e, no fim das contas, eram só águas de maio fechando o outono com cara de inverno. É miau, é pau, é pedra. E pode ser o fim do caminho. Ou não. Pelo menos enquanto não chegar o El Niño.
O Sinditotó, grupo de oposição que sempre rosna contra qualquer movimento - social ou de carteiros no portão - foi o primeiro a ganhar as ruas.
- Impeachment desses tutores! Já!
- Hum. Mas é quem te dá uma boquinha.
- Não quero saber.
- Pensa. Aquela ração básica de todo dia. Um ossinho, um restinho de comida…
- Vai morder outro, conformista!
- Não dá bola. Esse aí é da turma do Petrocão. Do bicho Master. Ou da Lava-gatos.
O Cut-Cut-Fófis, que reúne gatinhos de madame, modelos para adesivos e etc., não gostou da provocação.
- Ei! Nós também estamos na luta!
- Vocês? Pelo quê?
- Ah, sei lá. Mais colo, mais cafuné. Mais banho com xampu que não arde nos olhos no pet shop, mais lantejoulas nos lacinhos. Essas coisas básicas. Ah! E pelo direito de não sermos atacados por vira-latas nas ruas, que, benzadeus, este país tá fora de controle.
Poodles brancos, e paulistas, concordaram. Pediram pena de morte e intervenção militar dos pitbulls. Foi quando um grupo de pardais de extrema esquerda passou voando baixo e veloz e jogando cocô na geral. “Tá. Vão atacar o palácio do governo agindo igual aos caras?”, perguntou, zombeteiro, um cãomunista das antigas, sorriso de velhos caninos quebrados pelo DOPS. “Não, eles só viram uns farelos na calçada e querem pegar primeiro”, respondeu com desprezo o Yorkshire ao lado, integrante dos new communist - a nova versão marxista, devidamente domesticada pelo capitalismo ex-selvagem, porém muito mais fashion com aquelas coleiras em tons lilás no lugar dos vermelhos mofados da foice e martelo.
Um bloco de baratas tontas gritou “tamo junto!” e quis saber para que lado ir, a fim de engrossar a massa. Moscas avisaram: só entrariam no final, depois da polícia e da... Da coisa feita. Ratos se articularam para aproveitar o momento e saquear o que pudessem.
Até que passou um coelhinho, na dele, ligeiro e concentrado como quem só cuida do seu nariz. A galera não perdoou e passou a gritar, em coro: “Cu-e-li-nhu! Se eu fosse como tu, tirava a mão do bolso e... ”. Horrorizado, ele reclamou, foi detido e interpelado veementemente pelos líderes do protesto.
- Bah, galera! Consegui emprego num super. - explicou - Vou interpretar Bugs Bunny e anunciar chocolates. Pô, preciso dessa grana! Moro numa gaiola, como grama e o pão que o dono amassou!
Seria liberado, mas não deu tempo pra mais nada. Chegou a tropa de choque. Os capas pretas. Salivando. Latindo alto. Os gatos correram, os ratos correram dos gatos, as moscas correram dos ratos e as baratas (tontas) fizeram selfies. Só alguns cães revoltados ficaram. E latiram também. Latiram muito. Até que algum humano ter a brilhante ideia de distribuir um osso pra cada um e o movimento decidir que, enfim, o melhor mesmo é ainda não morder ninguém. Pelo menos enquanto houver osso.
