Há algo profundamente terrível quando um menino cresce acreditando que ser homem é colecionar mulheres como quem coleciona troféus. Que elas não passam de objetos. Isso ele aprende nas falas e silêncios da casa, nas piadas preconceituosas, na redução da presença. Nos gestos que imita como normais desde tenra idade. Assim, nenhuma política pública ou lei servirá de nada se os pais de meninos não ensinarem, aos seus filhos, o verdadeiro respeito à mulher. À qualquer ser humano. Que mulher não é território a ser conquistado, nem prêmio a ser exibido, nem história vulgar para se exibir entre amigos. Mulher é pessoa inteira: corpo, voz, histórias, medos, coragem, sonhos. Quem aprende isso cedo não cresce achando que virilidade é dominar, invadir, humilhar ou tomar à força.
Um soco na consciência
O país voltou a se chocar com mais um caso de estupro coletivo. Não bastasse a brutalidade do crime, dilacera ainda mais o deboche. Depois de violentar a menina, um dos agressores ri e diz: “a mãe de alguém teve que chorar hoje, porque nossas mães...”. A frase ecoa como um soco em nossa consciência. Porque, por trás dela, está a terrível incapacidade de reconhecer algo de humano na vítima da sua selvageria. Para ele, a violentada não era alguém que merecesse dignidade. Era apenas “mais uma”. Outro corpo a ser usado. Feito coisa. Feito resto. Feito lixo.
- “Os Dinossauros”: como é a série produzida por Steven Spielberg e narrada por Morgan Freeman
- Os filhos da violência
Os alarmes dos feminicídios
Essa mesma lógica — a que transforma mulher em objeto e não em pessoa — está por trás de tragédias que se repetem todos os dias. Esses altos índices de feminicídio são um alarme social que insiste em tocar e que ainda não ouvimos como deveríamos. Todos os dias são registrados milhares de casos de violência contra a mulher no País. Agressões dentro de casa, ameaças, perseguições, humilhações no trabalho ou em ambientes externos, estupros. Sem contar a cifra oculta, aquela dor silenciosa que não chega às delegacias porque a vítima tem medo ou carrega o peso cruel do julgamento social.
Pais, conversem com seus filhos. Desde cedo. Mostrem a eles que desejo não é licença para invadir. Que insistência não transforma um “não” em “sim”. Que rir da dor de uma mulher é uma forma de falência moral. Ensinem que respeito não depende da roupa, da hora da noite ou do estilo de vida que a mulher leva. Ensinem que não é vergonha ser gentil, que não é fraqueza ouvir, que não é perda de masculinidade reconhecer limites.
Talvez seja assim — dentro das casas, nas mesas de jantar, nas conversas sinceras entre pais e filhos — que comece a nascer um outro tipo de homem. Um homem que não faça tanta gente chorar com sua violência. Um homem que não transforme mais mulheres em vítimas da sua estupidez. Um homem que entenda, de uma vez por todas, que a verdadeira força reside em proteger a dignidade do outro.
