Oscar Bessi

Os filhos das nossas tragédias

Há um país inteiro crescendo com memórias de dor e histórias interrompidas

Há perguntas que a gente evita fazer porque sabe que a resposta dói demais. Uma delas é simples, curta, devastadora: e o que acontece com os filhos dessas tragédias todas que infestam os nossos dias?

Em Três Coroas, três ciclistas foram arrancados da vida no asfalto. Entre eles, um casal. Duas pessoas que, até aquele dia, eram pai e mãe — inteiros, presentes, exemplos de valores saudáveis. De repente, por causa de um motorista bêbado, tudo virou passado. Duas crianças ficaram. Crianças que dormiram numa casa onde havia planos, rotinas, risadas, broncas carinhosas, mochila pronta para a escola e beijo de boa-noite e acordaram sob o peso insuportável da dor mais aguda. A infância delas passou a ter uma palavra adulta demais: luto.

E então se fala em imprudência, em crime de trânsito, em investigação. Fala-se em índices, em alcoolemia, em velocidade. Mas não se fala do silêncio da primeira noite dessas crianças sem seus pais. Não se fala da cama que parece grande demais e do breu que vai além da noite. Não se fala do desenho na geladeira que não terá mais aplauso. Não se fala do dia das mães e do dia dos pais na escola, quando professores precisarão escolher palavras que não rasguem ainda mais o que já está dilacerado.

O peso da violência doméstica

E o que acontece com os filhos das vítimas de feminicídio? Ficam órfãos duas vezes. Perdem a mãe para a violência e, muitas vezes, perdem o pai para a prisão. Ou para a memória insuportável do que ele fez. Crescem carregando uma herança que não pediram: gritos, desespero, violência, a cena do crime, o sussurro da vizinhança, a manchete que nunca some completamente do buscador da internet. São crianças que aprendem cedo demais que amor pode virar ameaça.

As marcas da violência urbana

E o que acontece com os filhos das balas perdidas, dos assaltos que dão errado para as vítimas, das brigas banais que terminam em sangue? Tornam-se especialistas em ausência. Aprendem a responder perguntas com um “não gosto de falar sobre isso”. Desenvolvem uma maturidade que não é virtude, é defesa. Algumas encontram colo em avós cansados, em tios improvisados, em professores atentos. Outras encontram apenas a própria resistência.

Outros, muitos deles, nem se encontram mais.

Há um país inteiro crescendo com memórias de dor e histórias interrompidas. Um país de crianças que precisarão ser mais fortes do que deveriam, sem qualquer garantia de sucesso em sua própria luta. E cada vez que naturalizamos a imprudência, o machismo, a banalização da violência, estamos assinando, invisivelmente, a sentença de mais uma infância ferida.

Quando um adulto morre numa tragédia, a vida perde um presente. E dói muito. Quando uma criança perde seus pais, o futuro é que sangra.

A pergunta continua ecoando porque precisa ecoar: o que acontece com os filhos das tragédias? Qual o apoio que eles recebem? Quem se importa, de verdade, com eles, como aqueles que agora não estão mais aqui? Porque eles continuam. Crescem. Sobrevivem, quem sabe. Mas nenhum deles sai ileso. E talvez a única resposta possível, como sociedade, seja esta: não basta punir depois. É preciso impedir antes. Porque cada decisão irresponsável no volante, cada gesto de ódio dentro de casa, cada ato violento nas ruas não atinge apenas uma vítima — atinge gerações inteiras que ainda nem aprenderam a se defender do mundo. Mas já aprenderam a não crer na esperança.