Oscar Bessi

Três Coroas: Trânsito, assassinato e máquinas mortíferas

Acidentes em estradas gaúchas revelam a irresponsabilidade de motoristas que transformam veículos em armas letais, perpetuando tragédias sem fim

Eu costumo pedir aos meus: evitem pegar estrada nas madrugadas de sexta para sábado ou sábado para domingo. Ainda mais perto do amanhecer.

Uma horda selvagem de loucos irresponsáveis, bêbados ou drogados, anda à solta com seus carros, saindo de baladas, bailões, festas, casas noturnas e afins. Em mais de três décadas e meia como policial, essa era a triste regra dos finais de semana.

Loucos psicopatas e suas máquinas mortíferas, prontos para matar ou morrer. Tão certo como as brigas de final de semana e os casos de violência doméstica movidos pelo álcool. Tragédias cotidianas que se empilham em estatísticas fúnebres que nunca mudam.

O casal e sua amiga, ciclistas, saíram antes do sol nascer para pegar estrada e encarar uma pedalada de 100km. Foi sua sentença de morte. Erro deles? Jamais! Não vamos inverter o jogo e o juízo de valores. Toda a responsabilidade é do irresponsável que passou a madrugada enchendo a cara numa casa noturna, pegou um carro, mesmo não sendo habilitado para tal, saiu dirigindo em zigue-zague, conforme testemunhas, e matou os três atletas. E fugiu sem prestar socorro. Foi pra casa, dormir, como se nada tivesse acontecido.

Tirou a mãe de duas crianças. Tirou a vida de gente do bem, saudável, gente que tinha uma postura de vida positiva, ao contrário dele, o assassino e sua máquina mortífera.

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O trânsito está repleto desse tipo de gente. Que bebe e sai matando. Que transforma o que deveria ser apenas um veículo em uma arma letal.

Agora, nos tempos atuais, estes irresponsáveis ganharam uma nova companhia: os motoristas que mexem em celular enquanto dirigem. E também têm causado muitas mortes País afora.

Nem vou ser repetitivo em falar de legislação ainda muito branda. Acabaram de facilitar a aquisição da CNH. E não é coisa de partido político, antes que os cabresteados pela polarização me acusem.

No governo anterior, outras flexibilizações foram concedidas, como a questão dos pontos para perda da CNH. É popular e dá voto, para direita ou esquerda, afrouxar regras, ainda mais no trânsito.

Quase que a totalidade das pessoas que conheço e não gostam da Brigada Militar, por exemplo, tem um rancor de trânsito na sua história que justifica o ódio. E estavam errados, mas não queriam ser responsabilizados. Afinal, impunidade boa é aquela pra mim - para os outros, tem que acabar.

Há poucos anos, uma jovem amiga minha estava voltando no Enem, no domingo. Vinha calmamente na sua moto, certamente sonhando com o futuro profissional que parecia estar ao seu alcance. Pegou estrada, pois morava em zona rural.

Um bêbado asqueroso saiu de um boteco com sua máquina mortífera e terminou com a vida dela no caminho, em alta velocidade e na contramão. Bom, há poucos dias estava livre, leve e solto, já há bastante tempo, e foi preso pela Brigada Militar por tráfico de drogas e ameaças aos vizinhos da comunidade onde mora. Este é o Brasil.

Agora, a tecnologia avança para armas de guerra poderosas e inteligentes, para consumismo em série, mas não consegue, ou não se interessa, em inventar um sistema operacional que impeça um veículo de trafegar quando guiado por um bêbado. Ou por um louco a fim de praticar rachas.

Porque os carros só viram máquinas mortíferas porque um assassino está pilotando. Enquanto isso, o tempo passa, e todos os dias choramos mortes demais que poderiam ser evitadas com uma única palavra: respeito.