A literatura acadêmica aponta que, a cada suicídio, pelo menos, 20 pessoas são afetadas, principalmente, os familiares mais próximos da pessoa que morreu. A conclusão é da chefe de Enfermagem da Unidade de Internação Psiquiátrica adulta e CAPS do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, enfermeira Eliane Lavall, que escreveu uma tese de doutorado sobre as experiências vivenciadas por familiares de pessoas que cometeram suicídio.
“As famílias passam por importante sofrimento psíquico e, muitas vezes, há uma potencialização de um sofrimento ou transtorno mental já preexistente. O sentimento de culpa esteve presente em todos os familiares entrevistados. Assim, a morte também impacta a rede de apoio da vítima de suicídio, que pode precisar de suporte da rede pública, visto que é comum manifestar problemas de saúde mental após esse tipo de vivência”, explica.
O preconceito e a estigmatização social influenciam na forma com que o sujeito conseguirá lidar com o momento do luto e com a reorganização de vida, segundo a doutora. “As manifestações de preconceito e estigma trazem as repercussões sociais do fenômeno do suicídio, e a forma como é vivenciado pelo familiar que sobreviveu traz implícita uma carga social que muitas vezes amplia mais ainda o sofrimento de quem vivencia esse luto”, observa a enfermeira.
Eliane identificou as estratégias que essas pessoas usam para enfrentar a perda. “A significação cultural de família foi vista como um recurso para o enfrentamento”, exemplifica.
Contágio
Se lidar com o luto já representa uma batalha dolorosa, o efeito conhecido como “contágio” é preocupante. “O impacto (de um suicídio) no coletivo é uma preocupação grande. Por isso, a importância das ações de ‘posvenção’. Eu e o Bruno (Moraes da Silva) vamos aos locais ajudar os grupos afetados a falar sobre o assunto”, cita Claudia Cruz, que junto com o colega, integra o Comitê de Prevenção ao Suicídio da SES no RS. Muitas vezes, eles são chamados por instituições, como escolas, universidades e empresas para ajudar. São algumas atitudes que evitam que tragédias possam ser ainda maiores.
“Temos que falar sobre o tema de modo responsável e seguro, seguindo diretrizes, para quebrar o estigma”, complementa Bruno.
O processo de acolhimento torna-se mais essencial para que o “sobrevivente” consiga lidar com o luto, mas também com “culpas irreais ou infundadas”, como denomina Claudia. “Assessoramos os municípios para que as equipes visitem a família e verifiquem se há mais alguém em risco. Oportunizamos espaços de fala para simbolizar o trauma. Falar sobre a experiência é uma forma de se afastar da cena traumática”, pondera.
No caso da família de José, que perdeu a vida em novembro, a família, ainda em luto, encontra formas de continuar. “Foi uma coisa abrupta”, define a nora da vítima. Ela conta que uma das filhas, muito ligada ao avô, passou a fazer terapia psicológica.
“Na verdade, é uma situação que deixa a família toda triste. É difícil ter o que dizer, porque não é uma situação esperada. É diferente de tudo. É pior do que uma doença, porque a doença tu sabe que a pessoa está doente. Às vezes tem cura, às vezes não tem, mas tem sempre a esperança”, reflete. Roberto rememora os momentos com o pai e avalia que a saúde mental precisa ser mais falada para prevenir novas ocorrências. Dos outros casos que a família recebeu notícias, muitos estavam relacionados com preocupação com dinheiro, o que não era algo enfrentado por José.
Problemas financeiros como fator de risco
É preciso incluir no tema do sofrimento mental a questão da insegurança econômica. Como a riqueza vem da terra, por vezes, os efeitos climáticos adversos e extremos podem acabar por ampliar a instabilidade emocional e se tornar um fator de risco.
A enfermeira Eliane Lavall, estudiosa da temática do suicídio, observou, em sua pesquisa, que a vida no campo se foca muito no trabalho, na construção de patrimônio, com aquisição de terras, por exemplo. “Assim, o bem material é algo que permanece e faz a ligação com as futuras gerações em que a terra carrega valor sentimental, mantendo a história da família.”
A relação entre a situação econômica e o agravamento do quadro psíquico resultou, por exemplo, em auditorias realizadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU), comandadas pelo ministro Augusto Nardes, para compreender o fenômeno e os seus desdobramentos. “Tempestades e granizo põem em risco toda a lavoura de pequenos agricultores que não têm as proteções do grande agronegócio. Perder a produção significa não ter lucro para o próximo período, o que afeta diretamente a saúde mental”, pondera Bruno Moraes da Silva.
Todas essas perdas agravam o problema do endividamento. No ano passado, a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) fez um levantamento das dívidas dos produtores junto às principais instituições que operam crédito rural no Estado. O valor chegou a R$ 27,4 bilhões de um total de 65 mil agricultores gaúchos.
Apesar de a questão econômica poder ter um impacto significativo, a literatura clínica ressalta que o suicídio é resultado de uma sobreposição de fatores.
“As pessoas olham para os fatores ‘proximais’ (visíveis, como o endividamento), mas existem fatores ‘distais’ que vêm desde a infância, como abusos ou negligência, ou ainda outras situações de violência”, explica Claudia Cruz.
Principais dados de Boletim Epidemiológico
- O Brasil registrou mais de 17 mil casos de suicídios em 2023. O dado equivale a 8,6 mortes por 100 mil habitantes.
- A distribuição dos casos no país ocorre de forma desigual.
- No Rio Grande do Sul a taxa de mortalidade, em 2023, foi de 16 por 100 mil habitantes, representando o dobro da taxa nacional.
- Em 2024, o RS teve a maior taxa entre os demais estados.
- Após um período de aumento nos casos de suicídio - entre 2015 e 2023 o crescimento foi de 47,70%, o ano de 2024 apresentou queda. Porém, a atualização das informações permanece.
- Quando se observa o perfil das vítimas no Estado (entre 2015 e 2024), os homens predominam, sendo quase 80% dos casos. Verifica-se também o crescimento na faixa etária, que atinge o ápice em idosos com mais de 80 anos.
Fonte: Boletim Epidemiológico, do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, da Secretaria Estadual de Saúde
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Entre lavouras e silêncio: a saúde mental dos agricultores em alerta no Rio Grande do Sul