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O que mais causa sofrimento ao agricultor

Características do ambiente e condições específicas sociais são fatores que podem contribuir para o adoecimento psíquico

Aspectos culturais relacionados ao meio rural que podem influenciar e ampliar o adoecimento psíquico
Aspectos culturais relacionados ao meio rural que podem influenciar e ampliar o adoecimento psíquico Foto : Mauro Schaefer

Apesar da subnotificação de suicídios envolvendo trabalhadores do campo, é possível ter uma compreensão maior a partir de algumas características ou dos chamados fatores de risco, como explicam Bruno Moraes da Silva e Claudia Weyne Cruz, que atuam no Comitê Estadual de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio da Secretaria de Saúde do RS.

A vulnerabilidade desses agricultores pode estar ligada a fatores de ordem social e ambiental. Não que sejam os causadores, mas podem ser compreendidos como elementos de maior pressão. Por exemplo, entra na categoria de risco o fato dessa população precisar exercer esforço físico extremo, ter uma exposição maior ao sol e a produtos tóxicos, o envelhecimento precoce ou ainda o isolamento geográfico.

“No Vale do Rio Pardo, encontramos agricultores do tabaco que passaram a vida trabalhando sob o sol, enfrentando longas jornadas de trabalho com muito esforço físico. O desgaste físico leva ao envelhecimento precoce. Somado a isso, há a intoxicação por nicotina e a exposição aos agrotóxicos organofosforados, que estudos mostram afetar o sistema nervoso central e o humor”, detalha Claudia Cruz, que pesquisou, em seu doutorado, o suicídio de agricultores idosos e continua investigando o tema em outras faixas etárias e profissões.

Há ainda aspectos culturais relacionados ao meio rural que podem influenciar e ampliar o adoecimento psíquico. Como o conceito do “ser humano produtivo” e que tem vergonha de adoecer. “O instrumento de trabalho do agricultor é o seu próprio corpo. Ver-se doente é colocar em risco sua subsistência. Há uma vergonha de estar doente e de parar de trabalhar em uma comunidade onde o trabalho é um valor de honradez”, contextualiza. Assim, é comum que haja uma demora ou até resistência em buscar apoio clínico.

“Muitas vezes é uma questão de não querer mostrar fraqueza perante a família e a comunidade. As pessoas só buscam ajuda quando as coisas estão muito graves”, completa Bruno da Silva.

Se a busca por atendimento médico por vezes já representa uma barreira, quando o foco são as doenças psíquicas as camadas de preconceito tendem a crescer. “O sofrimento psíquico ainda é associado à loucura. Esse aspecto, além de poder fazer com que um caso venha a se agravar, também traz dificuldades e prejudica as ações de prevenção”, como aponta Claudia.

Gênero

Ainda neste contexto, os dados do boletim epidemiológico mostram que, no perfil das vítimas no Rio Grande do Sul (entre 2015 e 2024), os homens predominam. “A gente vê que a prevalência dos suicídios é de homens, 80%. Então, tem a sobrecarga da responsabilidade. É aquela pessoa que não quer nem descobrir se tem alguma doença, porque geralmente é responsável pela propriedade. Então, é um trabalho de desconstrução e acaba dando uma aliviada. Acho que é importante falar sobre a situação”, afirma a analista de saúde do Senar Fernanda Kusiak. “O principal problema é encorajar o homem a entender que sofrimento não é ‘mimimi’ ou fraqueza”, complementa Bruno da Silva.

Maria vivenciou essa realidade dentro de casa. Ela viu o marido Pedro adoecer em função da depressão até o final trágico, quando já estavam separados.

“Aquela ideia machista de que homem tem que ser forte. Remédio é coisa de louco. Ele quis abraçar o mundo sozinho, mas neste último ano não aguentou. No fim, ele dizia que sentia uma dor muito grande e só tinha vontade de parar com a dor. E assim fez”, descreve, ao rememorar o que aconteceu em setembro do ano passado e que mudou tudo para quem ficou.

Envelhecimento

Ao traçar o perfil das pessoas que se suicidam, o boletim também aponta um crescimento na faixa etária, que atinge o ápice com pessoas de mais de 80 anos. Com estudo voltado ao suicídio de idosos no Sul do país, Claudia Cruz compreende que há singularidades quando se pensa no envelhecimento dos agricultores, que acaba por agravar ainda mais a percepção de perda de “valor”. “No campo, a lógica é ‘viver para trabalhar e trabalhar para viver’. Quando a doença vem, surge o medo de ser um incômodo para os familiares”, cita.

A mesma percepção é compartilhada pela secretária-geral da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Jaciara Muller. Conforme ela, a terceira idade é um caso especial de preocupação. “Pelo fato de que perderam muita coisa na propriedade, eles não têm condições de se reorganizar. Por vezes, os filhos já saíram da propriedade.”

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