Não se pode dizer que foi apenas trote ou brincadeira. Na noite em que os celulares começaram a disparar alertas falsos da Defesa Civil, país afora, muita gente reviveu fantasmas recentes. Em um país ainda marcado por enchentes, deslizamentos e tragédias climáticas que transformaram cidades inteiras em retratos da devastação, qualquer aviso de emergência já não é apenas uma mensagem na tela. É um gatilho emocional. É, no mínimo, a lembrança da água subindo, das sirenes tocando e das notícias que interrompem o cotidiano para anunciar que alguém perdeu tudo. É medo. É ver outra vez centenas de vidas em risco, na lembrança triste de tantas que já perdemos, entre adultos e crianças.
O problema não foi apenas o susto. Alertas de defesa civil existem porque o tempo, às vezes, não dá segunda chance. São instrumentos criados para salvar vidas quando cada minuto importa. Quando um sistema desses é usado para espalhar informações falsas, instala-se um efeito corrosivo: a dúvida. E uma população que passa a desconfiar dos avisos oficiais pode ignorar justamente aquele alerta que um dia será verdadeiro e decisivo.
A situação ganha contornos ainda mais delicados diante das previsões e temores em torno de um novo e intenso El Niño. O “Super” El Niño. Depois de tantas catástrofes recentes, qualquer notícia relacionada ao clima encontra terreno fértil para o medo. Famílias reorganizam rotinas, produtores rurais monitoram o céu e temem prejuízos irreversíveis, autoridades acionam estruturas para ficarem de prontidão. Um falso alarme nesse cenário equivale a gritar “incêndio” em um teatro lotado onde todos já sentiram cheiro de fumaça. É o caos.
Curiosamente, um dos nomes associados ao episódio remete à palavra misantropia, utilizada nas mensagens. O termo vem do grego: “misos”, ódio, e “anthropos”, ser humano. O misantropo seria, portanto, alguém que não aprecia muito a humanidade. Há certa ironia nisso. Afinal, poucas demonstrações de apreço pela espécie humana parecem tão contraditórias quanto dedicar esforço técnico para chamar a atenção simultânea de milhões de pessoas. Quem diz não gostar da humanidade acabou, involuntariamente ou não, buscando exatamente a companhia dela.
Enquanto autoridades investigam autoria, motivações e responsabilidades, os transtornos já são conhecidos. Centrais de atendimento são acionadas, equipes mobilizam recursos para esclarecer boatos e cidadãos gastam horas tentando descobrir se correm perigo real ou imaginário. O prejuízo não se mede apenas em dinheiro ou tempo. Mede-se também em credibilidade, um patrimônio invisível que leva anos para ser construído e poucos segundos para ser abalado.
O verdadeiro alerta, porém, talvez seja outro. Mais preocupante do que a mensagem falsa é a possibilidade de que sistemas tão essenciais possam ser vulneráveis a interferências relativamente simples. Seja qual for a autoria do ataque e independentemente de como a invasão tenha ocorrido, o episódio revela o quanto ainda engatinhamos em segurança digital nos setores mais nevrálgicos da proteção coletiva. Num mundo em que uma notificação pode salvar vidas, proteger quem e como se emite um alerta tornou-se quase tão importante quanto o próprio alerta.
