Oscar Bessi

O menino que saiu das drogas

Ele me entregou o lanche, retirou capacete sem se importar com a chuva grossa que caía e sorriu. “Lembra de mim , capitão?”. Eu, que já não era mais capitão há coisa de um ano, menti que sim. Com algum receio, não nego. Mas o sorriso franco de dentes imperfeitos e um olhar úmido de uma alegria quase infantil me inspiravam confiança. “Então. Devo isto ao senhor".

Há doçura na memória que nos afaga. Ainda que tragam consigo qualquer desconforto persistente de caos. Que pulsa tão forte, como nessas do cotidiano policial, a ponto de mesmo nas boas lembranças ele se intrometer, sob lufadas cinzentas, ou azedas, ou sob sombras indefinidas.

Era uma noite de chuva e tanto eu como minha mulher havíamos chegado em casa tarde.

Decidimos pedir um lanche, as crianças tinham fome. Ela também. eu, confesso que não, mas participei da escolha de um cardápio que satisfizesse a todos os gostos – ou seja, atendesse a vontade seletiva dos pequenos – e fomos providenciar na sequência de banhos (nunca simples, numa casa que tem crianças) e arrumações, enquanto se aguardava a quase uma hora prometida para a entrega.
Sobrou-me tempo para aguardar a chegada das refeições na minha pequena biblioteca, com uma música suave e um livro. Lembro que eu relia um romance de Ubaldo.

Despertei da imersão na leitura com a buzina impaciente e bons minutos antes do horário previsto. Apanhei a carteira, as chaves e não lembrei oem que raio de lugar havia deixado o guarda-chuvas que recém usara. Desisti de procurar. Não queria deixar o motoboy na espera com aquele tempo feio. Costume. Não gosto, mesmo em noites ou dias de tempo bom, de deixar esses profissionais numa espera. Sei que trabalham sob demanda. E ouvem desaforos com uma frequência desnecessária e descabida, tanto de quem envia quanto de quem recebe suas entregas. Fora o risco da pressa que oferecem no trânsito, a si e aos outros, por essas cobranças, ou pela oportunidade de fazer uns trocados a mais, ainda mais em pistas molhadas como naquela noite.

Ele meu saudou, desceu da moto, abriu a capa, abriu a bag térmica vermelha e conferiu dois lanches ensacados até reconhecer meu o endereço. E o nome, depois fui saber. Resmungou algo que não entendi. “Cartão”, arrisquei informar, num aceno com o pequeno retângulo plástico e complementando com o nome do banco onde tenho conta.

Ele me entregou o lanche, retirou capacete sem se importar com a chuva grossa que caía e sorriu. “Lembra de mim , capitão?”. Eu, que já não era mais capitão há coisa de um ano, menti que sim. Com algum receio, não nego. Numa cidade de porte médio, ainda assim do interior, é fácil encontrar amigos, mas também inimigos. Nunca sei, por exemplo, quando um desconhecido me aborda no mercado se ele é alguém que ajudei, que prendi ou se trata apenas de integrante da minha meia dúzia de leitores. Ou ainda, para piorar - e o que na verdade é até mais comum -, nada além de uma pessoa que eu teria obrigação de lembrar por qualquer convivência nem tão distante assim, mas que minha péssima memória insiste em ignorar, talvez com o franco propósito de me deixar em uma saia justa.

Só que o sorriso franco, de dentes imperfeitos, e aquele olhar úmido e iluminado de uma alegria quase infantil, me inspiraram confiança. “Então. Devo isto ao senhor", disse.

Peguei o lanche.

“Que bom!”, tentei interagir, ainda sem entender nada. E ensopado. Estendi o cartão. Ele não fez questão de pegar a maquininha de cobrança.

“Lembra?E

Fui obrigado a ser sincero. Quero dizer, em parte. Disse que, sim, claro, lembrava dele, mas não exatamente de onde – e fiz uma careta de quem busca algo, ainda que ciente de que não encontrará coisa alguma na cabeça falha.

Ele finalmente se deu conta de que precisava pegar a maquininha para me cobrar.

“O senhor podia ter me prendido. Me pegou na boca, eu tinha roubado uma bicicleta. O senhor me fez devolver para o dono e conversou comigo sobre parar com as drogas, voltar para a escola, dar uma chance para mim mesmo. Eu era de menor, mas o senhor nem quis saber. Só quis conversar.”

Tentei lembrar do fato. Eu fui capitão da Brigada Militar por dezessete anos e, após passagens em Alvorada, Canoas e Porto Alegre, havia voltado para a cidade onde passei minha infância (ainda que tenha nascido mesmo na capital) e comandado a companhia de policiamento local por muitos anos. Incluindo a interrupção por conta de uma transferência de cidade, exigida por políticos que não gostaram da minha crítica, em colunas de jornal, às defesas explícitas ao uso de drogas que eles faziam.

“Eu já tinha visto o senhor. E dando uma dura num louco.", riu.

Ri também, na falta de saber o que fazer por não lembrar da história.

“Eu não sei o que me deu na cabeça, naquela noite. A mãe já tinha me internado umas três vezes, nunca deu certo. Mas ali eu achei que Deus estava me dando uma chance. E olha aqui. Terminei o colégio e tô trabalhando. Este - me mostrou a moto – é meu bico.

Fui pego de surpresa. Não senti mais a chuva. Sorte que os lanches estavam bem protegidos numa sacola plástica. Fique, parado, ouvindo a história dele. Tinha uma casinha no outro lado da cidade, a mulher trabalhava numa loja do centro, o bebê completaria um ano dali duas semanas. "Tô nessa chuva porque vamos fazer uma festinha simples, mas um aninho é um aninho, né."

Eu lembrei apenas flashes da situação com ele. Como eu comandava o policiamento, e gostava da função, quase todos os dias acompanhava o pessoal nas ações cotidianas. Tentava ser o oposto do “comandante de gabinete”, figura que tanto incomodava meus colegas de farda. O lado bom disso tudo era viver, ao lado deles, muitos dramas humanos das ruas, complexos apesar de aparentemente simples, e que acontecem em qualquer lugar, seja uma pequena cidade, seja uma metrópole. O lado ruim era serem tantos casos e rostos que eu acabava esquecendo mais da metade.

Conversamos mais um pouco. Pude ver que ele estava feliz. E me deu um cartão, trabalhava com reformas em residências, pinturas e etc., para a hora que eu precisasse. “O senhor tem desconto, sempre”, finalizou, enquanto fechava a bolsa e a acomodava outra vez a tiracolo.

“Aliás, eu lhe pagaria esse lanche, se pudesse. O senhor merece.”
“Capaz.”, respondi.
“É. E tá caro isso daí. Família grande não é fácil!”, riu. “Lá em casa eu peço só pra duas bocas, que o bebê ainda não come essas coisas, e já não pode ser toda hora.”
Respondi com alguma piada que me veio na hora sobre também não pedir toda hora e tirar uma folga na cozinha. Ele ligou a moto e acenou, “foi um prazer te rever, capitão!”.

Fiquei alguns instantes ali, na chuva que parecia ainda mais intensa, acompanhando a moto desaparecer na esquina de duas quadras depois.

“Prazer foi meu, guri”, murmurei. Havia algo dentro de mim que parecia uma súbita felicidade.

Entrei em casa. Eu havia colocado a tocar, no computador, as “Trois gymnopédies”, composições de piano que o francês Erik Satie fez inspirado em um poemas de Latour chamado Les Antiques. E me senti como numa cena de final feliz daqueles filmes dos anos 40. Incrível como certas casualidades parecem, num olhar de soslaio, aparentar muitos sentidos.

Enquanto pegava pratos e talheres, lembrei de alguns casos em que a mesma tentativa de resgatar alguém desse mundo de drogas e violência não havia dado certo. Numa sucessão de flashes, revi o o rosto choroso de um pai de quarenta e poucos anos, que trocava coisas do filho por crack. O desespero So rapaz que peguei pulando um muro com o aspirador de pó da casa que ele recém invadira. A raiva da adolescente arrastada para uma orgia em troca de pó.

Um dos meus filhos chamou. “Chegou o lanche, pai?”.

Chegou, murmurei. Ou acho que murmurei.

Soprei a poeira do caos de minha cabeça. E tentei pensar que, mesmo que centenas de coisas não tenham dado certo, uma que tenha dado já valeu a pena.

E agora eu estava com fome.

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