Não há como rotular pessoas ou seus coletivos. É pequeno o poder de raciocínio de quem diminui seres humanos entre preconceitos, ou pré-conceitos. É de uma ignorância terrível, por exemplo, o ateu ironizar quem tem fé nalguma religião, seja ela qual for, como é igualmente chato um religioso debochar dos ateus, ou dos seguidores de outra fé. Mentes são livres. Jamais haverá tirania capaz de aprisionar o pensamento de cada um. Podem enjaular o corpo e proibir a manifestação. Não o pensar. Tampouco alguém pode dizer que tem o direito de definir o seu certo como único e definitivo. Eis um gesto arrogante, pequeno e intransigente.
Outra: é comum o coletivo pagar pelo preço do erro de um sujeito. E o péssimo conceito que se alastra atinge, injusto e impiedoso, a esmagadora maioria de inocentes. Pois temos o mau costume de destacar o que é ruim, o que denigre o próximo, nunca o que o enaltece. Onde houver ser humano, há possibilidade de erro. Entre professores, jornalistas, advogados, médicos, policiais, religiosos, juízes. Errar é ser gente, não robô.
Durante quase quatro décadas, por exemplo, convivi com brigadianos. Conviver. Não observo de longe ou tirar conclusões apressadas sobre algum fato. Conheço vidas, dramas, sonhos, desejos e decepções. Tão seres humanos quanto todos, nada de especial. Apenas encararam uma profissão e seus desafios. Assim fazemos em nossas vidas.
E, feito professores e profissionais de saúde e tantos outros, eles, e elas, brigadianos, não encararam o seu ofício motivados por dinheiro, sucesso ou glamour. Não há charme algum em brincar de kamikaze todo dia e correr na direção contrária, indo ao encontro do perigo e do conflito quando todos fogem deles. Conheço milhares de pessoas maravilhosas nesse meio profissional. A esmagadora delas em nenhuma posição de destaque em seu trabalho, apenas fazendo o que é preciso, todos os dias, praticamente sem folga, sem um final de semana para passear coma família, sem reconhecimento algum.
Mas bastará o gesto de um para que se denigra o coletivo. Que se publique, ainda mais nestes tempos de ferocidade avassaladora e apressada, julgamentos e extermínios de toda sorte. Uma pena. Errar é dos humanos e haverá erros em todos os lugares, até entre os monges do Tibet. Mas serão sempre atitudes de indivíduos, não de suas profissões, grupos ou instituições.
Enfim, escolher entre bem e o mal é só uma opção pessoal, com suas pessoais motivações. Há ambos em nosso interior e nascem entre nossas mágoas e traumas, vitórias e derrotas, paixões e tristezas. Da história, dos valores e da educação de cada um. Todos nós podemos ser bons e ruins porque somos humanos. Podemos escolher, na maioria das vezes. E, se lúcidos, temos que ser responsabilizados individualmente por isto. Hoje, por exemplo, decidi dedicar este pequeno texto à minha meia dúzia de leitores, entre eles antigos colegas de profissão. Nem sei se servirá para alguma coisa. É só uma escolha. Nada além de só mais um fato humano.
