Há um estudo muito interessante, e belo, sobre o olhar. Sou um defensor dessa magia de se olhar nos olhos e perceber o outro. De verdade. Descobri-lo. Desnudá-lo. Pois uma experiência foi feita com diversas pessoas postas frente a frente, cada qual numa cadeira, onde a única tarefa era ficarem se olhando. Alguns eram totalmente estranhos entre si, outros eram casais, amigos, irmãos, pais, mães, padrastos, madrastas e filhos. Crianças. Quatro minutos, apenas. O que são quatro minutos? A eternidade de um trânsito congestionado e nervoso. A crueldade implacável e fria de um ponto de trabalho onde eles serão descontados do turno, às vezes em exagero, em nome da produção e do lucro. Quatro minutos que não temos para uma boa conversa num encontro casual na rua ou no mercado. Um nada nesta vida cronológica e acelerada.
As reações foram fantásticas, nesta experiência. Nestes minutos mínimos, as primeiras reações foram sorrisos. E conversas fúteis. As doces conversas fúteis, que não debatem, não discutem, não se atritam por opções religiosas, partidárias ou futebolísticas. Nesses quatro minutos de olhar – e não era um “jogo do sério”, então podia piscar, podia rir, podia chorar, podia tudo, exceto desviar o olho - as pessoas se permitiam ver o outro. Sim. Ver lá no fundo, descobrir. Quatro minutos apenas olhando no olho do outro e nascia a intimidade. A amizade. A descoberta de que somos tão diversos quanto semelhantes, e que isto é fator de proximidade, não de distância. Porque em quatro míseros minutos de olhar nos damos conta de que somos, todos, humanos.
Chamou-me a atenção um casal. Eles estão juntos há cinquenta e cinco anos, mais de meio século. E haviam perdido a capacidade de se olhar. O marido chegou a confessar que via na esposa um vulto, há muito tempo, no qual mal prestava atenção. Ela, por sua vez, admitiu que nestes quatro minutos de olhar no olho de seu velho companheiro redescobriu como ele é importante em sua vida e admitiu "nunca nos olhamos desta maneira, ou não lembro". Ele respondeu: "Quando foquei em seus olhos eu lembrei o quanto eu preciso de você e o quanto você é importante para mim".
A vida policial me ensinou do jeito mais torto isso de olhar nos olhos e captar essências. Dificilmente me engano com alguém. Mas não é o suficiente. Desarmar, despir rótulos, aproximar, isto sim resolve nossos conflitos humanos. Que tal fazermos esta experiência em casa? Nas igrejas? Nas escolas, nos grupos de amigos, nos locais de trabalho? São apenas quatro minutos. Não será tempo perdido. E nem temos tanto tempo assim a perder.
