Oscar Bessi

Segurança ainda precisa ser humana

A câmera de alta resolução captura rostos, placas, movimentos. Mas não capta intenção. Não há drone que identifique caráter, nem banco de dados que catalogue alma e valores morais. Nenhum algoritmo vigia pensamentos. Violência não nasce no pixel, mas no sujeito, no impulso, no descontrole, nas intolerâncias e exclusões, nas rachaduras invisíveis que máquina nenhuma lê. Que os gestores públicos lembrem disso e apostem em Educação para prevenir crimes e violências. E valorizem seus policiais, para o tanto que, ainda assim, não se evitará.

Dizem que vivemos na era da “segurança inteligente”. Tudo é mais seguro porque alguém, em algum momento, nalgum laboratório com ar-condicionado isolado do mundo, jurou que um algoritmo entende melhor o ser humano do que o próprio ser humano. Nossas cidades hoje se vigiam por câmeras, drones, satélites, sensores, microchips, QR codes. Até arma com Wi-Fi próprio tem. Claro, na mão dos patrocinadores das guerras ou de facções. O problema é quando cai uma chuva forte (raro, nesse clima em desequilíbrio?) e toda essa inteligência vira anda além de um idiota molhado. A central de monitoramento pisca igual árvore de Natal descompensada, o reconhecimento facial confunde o suspeito com o técnico do TI e o mapa interativo insiste, a viatura mais próxima está em pleno Oceano Atlântico.

Já foi no mercado ou na farmácia quando o sistema cai? Então. A dependência tecnológica não pode causar desespero operacional na segurança de todos quando o sistema falha. A cada tempestade, perguntamos: e agora, como se patrulha sem GPS? E se a bateria do carro elétrico acaba no instante poético em que começa um tiroteio? Os mil olhos das mil câmeras cegarão por um vendaval ou simples queda de luz? E a invasão hacker, este ofício criminoso hoje mais banal do que o antigo batedor de carteira na Rua da Praia? Fora o drama das senhas. A segurança moderna exige tantas autenticações que alguém que vigia talvez passe metade do seu turno provando ao sistema que ele é ele mesmo. Senão, trava tudo. Ou, quando finalmente acessa (se não acabou a bateria do celular antes), descobre que a ferramenta está “em atualização”. A vida real não entra em modo de manutenção. Os sistemas, sim. E sempre na hora errada.

E enquanto essa tecnologia toda desfila como salvadora da qualidade de vida, cobrando altos custos e investimentos, os problemas continuam sendo essencialmente humanos. A câmera de alta resolução captura rostos, placas, movimentos. Mas não capta intenção. Não há drone que identifique caráter, nem banco de dados que catalogue alma e valores morais. Nenhum algoritmo vigia pensamentos. E, se algum dia inventarem, é bom lembrar que o brasileiro médio já burla fila prioritária no supermercado e etc. assim, no modo automático. Seria o caos. Violência não nasce no pixel, mas no sujeito, no impulso, no descontrole, nas intolerâncias e exclusões, nas rachaduras invisíveis que máquina nenhuma lê.

No fim, seguimos entre o brilho das telas e a precariedade dos fios. Tecnologia é ótima e ajuda, claro. Quando funciona. Mas confiar inteiramente nela é como usar guarda-chuva em temporal, não impede o estrago. Segurança ainda depende do velho fator humano, com suas virtudes, defeitos e improvisos criativos. E talvez seja justamente aí, nesse caos administrável, que mora a única certeza possível: é preciso investir em tecnologia, ok, mas investir no ser humano é prioritário. Que os gestores públicos lembrem disso e apostem em Educação para prevenir crimes e violências. E valorizem seus policiais, para o tanto que, ainda assim, não se evitará.

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