Há quem ainda insista em tratar a internet como uma terra sem lei, onde qualquer absurdo pode ser disfarçado de entretenimento. A decisão da Justiça gaúcha, a pedido do Ministério Público do Rio Grande do Sul, de determinar a retirada do Spotify de playlists, perfis e músicas que exaltavam massacres escolares, automutilação e discursos de ódio dirigidos a crianças e adolescentes, mostra exatamente o contrário: a liberdade não pode servir de escudo para a fabricação e propagação da barbárie. A música, que tantas vezes consola, inspira e aproxima pessoas, jamais pode ser transformada em trilha sonora para o incentivo à violência. E todos sabemos o poder de incentivo a tragédias que isso provoca.
Por trás dessa iniciativa está o Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (NUPVE), um dos mais importantes projetos brasileiros de prevenção à radicalização de jovens. Criado pelo Ministério Público gaúcho para identificar precocemente sinais de violência extrema, o núcleo trabalha com inteligência, capacitação e prevenção, compreendendo que impedir um ataque vale infinitamente mais do que investigar suas consequências. É uma atuação moderna, técnica e, sobretudo, humana, que merece ser conhecida e replicada em outros estados. Quiçá em outros países.
O mais assustador talvez não sejam apenas as playlists encontradas, mas o ambiente de normalização que elas procuram construir. Ao romantizar assassinos, estimular o suicídio, a automutilação e o ódio, esses conteúdos funcionam como portas de entrada para processos de radicalização que encontram justamente nos adolescentes mais vulneráveis seu público preferencial. Combater esse material não significa censurar a arte, mas impedir que plataformas digitais sejam utilizadas como instrumentos de recrutamento emocional para a violência.
A iniciativa do Ministério Público e da Justiça do Rio Grande do Sul lança um exemplo importante para o país. E justamente em um ano eleitoral onde o ambiente público tende a ser contaminado por discursos cada vez mais agressivos e intolerantes. Divergências políticas fazem parte da democracia. Porém, a glorificação da violência e o ódio ao opositor, jamais. Se quisermos preservar a liberdade, será preciso defender com igual firmeza a responsabilidade. Afinal, nenhuma sociedade se fortalece permitindo que o ódio encontre palco, algoritmo e plateia. E é sempre bom lembrar que aqueles que mais amamos estão em risco, todos os dias, por causa de meia dúzia de dementes em busca de notoriedade.
Silêncio na trilha do ódio
Divergências políticas fazem parte da democracia. Porém, a glorificação da violência e o ódio ao opositor, jamais. Para preservar a liberdade é preciso defender com firmeza a responsabilidade.
