Oscar Bessi

Silêncio na trilha do ódio

Divergências políticas fazem parte da democracia. Porém, a glorificação da violência e o ódio ao opositor, jamais. Para preservar a liberdade é preciso defender com firmeza a responsabilidade.

Há quem ainda insista em tratar a internet como uma terra sem lei, onde qualquer absurdo pode ser disfarçado de entretenimento. A decisão da Justiça gaúcha, a pedido do Ministério Público do Rio Grande do Sul, de determinar a retirada do Spotify de playlists, perfis e músicas que exaltavam massacres escolares, automutilação e discursos de ódio dirigidos a crianças e adolescentes, mostra exatamente o contrário: a liberdade não pode servir de escudo para a fabricação e propagação da barbárie. A música, que tantas vezes consola, inspira e aproxima pessoas, jamais pode ser transformada em trilha sonora para o incentivo à violência. E todos sabemos o poder de incentivo a tragédias que isso provoca.
Por trás dessa iniciativa está o Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (NUPVE), um dos mais importantes projetos brasileiros de prevenção à radicalização de jovens. Criado pelo Ministério Público gaúcho para identificar precocemente sinais de violência extrema, o núcleo trabalha com inteligência, capacitação e prevenção, compreendendo que impedir um ataque vale infinitamente mais do que investigar suas consequências. É uma atuação moderna, técnica e, sobretudo, humana, que merece ser conhecida e replicada em outros estados. Quiçá em outros países.
O mais assustador talvez não sejam apenas as playlists encontradas, mas o ambiente de normalização que elas procuram construir. Ao romantizar assassinos, estimular o suicídio, a automutilação e o ódio, esses conteúdos funcionam como portas de entrada para processos de radicalização que encontram justamente nos adolescentes mais vulneráveis seu público preferencial. Combater esse material não significa censurar a arte, mas impedir que plataformas digitais sejam utilizadas como instrumentos de recrutamento emocional para a violência.
A iniciativa do Ministério Público e da Justiça do Rio Grande do Sul lança um exemplo importante para o país. E justamente em um ano eleitoral onde o ambiente público tende a ser contaminado por discursos cada vez mais agressivos e intolerantes. Divergências políticas fazem parte da democracia. Porém, a glorificação da violência e o ódio ao opositor, jamais. Se quisermos preservar a liberdade, será preciso defender com igual firmeza a responsabilidade. Afinal, nenhuma sociedade se fortalece permitindo que o ódio encontre palco, algoritmo e plateia. E é sempre bom lembrar que aqueles que mais amamos estão em risco, todos os dias, por causa de meia dúzia de dementes em busca de notoriedade.