Certa feita, encontrei um caqui entre tomates. Foi na feira livre da Xavier de Almeida, no Alto do Ipiranga, em São Paulo. Havia encerrado uma turnê em terras paulistas com meu livro "Um caminho no meio das pedras", novela juvenil que aborda o tema do crack e outros debates. Eu visitava o Bruno, amigo e editor. Ele já tinha me apresentado boa parte daquela cidade maluca, estressada e múltipla, incrivelmente milionária e miserável. Tão estupenda e tão comum em suas manias de grandeza até numa simples feira livre. Fui lá.
Quilômetros de barracas, tendas, contêineres. Gosto de andar invisível entre algum povo que porventura eu não conheça. Pescando suas reações sinceras, suas euforias sem máscaras, suas inquietações. Percorri bancas entre gritos, gargalhadas e alguns protestos sobre os preços. Principalmente do tomate. Se em qualquer lugar do Brasil o tomate anda caro, em São Paulo está mais ainda.
Pois numa pilha de tomates lá estava ele: o caqui. Disfarçado. Quieto. E eu me aproximei sem qualquer intenção de descobri-lo, até que aquele tomate um pouco opaco me chamou a atenção. Parecido com os outros, mas não era de verdade. Um caqui. Seus semelhantes eram vendidos a um preço três vezes menor. Semelhante? Não, outra estirpe. Similar? Muito menos. Quase igual? De vista, talvez. A um olhar menos experiente, mas não ao meu, guri ítalo-caboclo nascido na capital, porém criado no interior do Rio Grande do Sul. Incomodado, encarei o caqui como quem fosse desmascará-lo em nome do Código do Consumidor, da inspetoria de saúde, do movimento passe livre ou o escambau. Mas minha mão ficou suspensa no ar. Numa bolha de silêncio entre tantos gritos.
Haverá sempre, nesta vida, aquele que quer ser quem jamais será. Que tenta parecer mais do que é por critérios mais dos outros do que realmente seus, sinceramente seus, essencialmente seus. Ou até mesmo do mundo real. Máscaras que se obrigará a vestir na desesperada tentativa de sucesso. É o tempo das máscaras, dos personagens de si mesmo. É o tempo do efêmero, do olhar sem prestar a mínima atenção.
Haverá até o que não vê diferença entre os desiguais, seja por incapacidade de compreender, por nem tentar, não querer, não ver ou até por qualquer birra ideológica. Talvez, ali, o pobre caqui só quis valer um pouco mais. Talvez só tenha sido jogado naquele cesto sem ter culpa alguma, num gesto descompromissado como milhares de outros dos gestos humanos. Talvez seja só mais uma vítima da ganância alheia, usado, como são os viciados por um traficante, ou os povos por seus gestores. Talvez fosse cúmplice de um golpe baixo, um engodo mínimo e invisível, só mais um neste país de farsas gigantes pela própria natureza que vê seus golpistas deitados eternamente em berço esplêndido.
Ou ele nem é um caqui, é uma cereja siliconada. Um abacate fantasiado para o próximo carnaval. Um fake. E tudo o que eu vi fosse nada além de uma ilusão de ótica, de uma conclusão precipitada. Quem saberá a verdadeira verdade? Quem julgará os que se perdem ao querer, desesperadamente, se encontrar? Quem julgará o caqui, esteja perdido ou fingindo ter mais valor entre tomates? Compadecido, comprei-o. Mas pelo preço de um caqui, óbvio.
