Oscar Bessi

Sobre o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio

É preciso mudar a forma como meninos são educados, como homens lidam com frustração, posse e poder, e como a sociedade reage aos primeiros sinais de violência. Mudar a forma como até a mulher mais simples do nosso povo se enxerga no contexto. Prevenir feminicídio é fazer o que realmente importa: impedir que o crime aconteça. Não é apenas punir depois. É transformar antes.

O lançamento do Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio é um passo importante e necessário. Até tardio, é preciso reconhecer. Mas sinaliza prioridade, articulação entre governos, poderes sociedade e instituições, além do essencial reconhecimento de que a violência contra a mulher não é um problema privado, mas uma tragédia social.

Investir em prevenção, integração de políticas públicas e proteção às vítimas é positivo, urgente e correto. O Estado precisa estar presente antes do crime, não apenas depois dele.

Mas é preciso dizer, com clareza: pactos, leis e programas não bastam sozinhos. Vinte anos após a Lei Maria da Penha, seguimos contando mulheres mortas todos os dias. Algo falha quando a legislação avança, mas o comportamento social permanece o mesmo. A violência continua sendo naturalizada, minimizada, relativizada em piadas, discursos, músicas, comerciais, atitudes cotidianas, silêncios e omissões que começam dentro de casa, passam pela escola, pelo trabalho, pelos clubes, pelas festas e se espalham pela cultura.

Por isso, a ação mais profunda precisa ser educacional e cultural — sem exagero, precisa invadir a vida cotidiana dos brasileiros. Mudar a forma como meninos são educados, como homens lidam com frustração, posse e poder, e como a sociedade reage aos primeiros sinais de violência. Mudar a forma como até a mulher mais simples do nosso povo se enxerga no contexto. Prevenir feminicídio é fazer o que realmente importa: impedir que o crime aconteça. Não é apenas punir depois. É transformar antes.