Caderno de Sábado

As Credenciais*

O Caderno de Sábado publica a primeira crônica de Luis Fernando Verissimo na Folha da Manhã, escrita na página 4 da edição de 1º de maio de 1970

Luis Fernando Verissimo durante o período em que foi redator da Folha da Manhã em 1971
Luis Fernando Verissimo durante o período em que foi redator da Folha da Manhã em 1971 Foto : Edemar / CP Memória

Como eu ia dizendo...

Para quem chegou atrasado, em breve resumo da odisseia do cronista.

As credenciais: Branco, brasileiro, colorado. Sexo: sim. Estado civil: solteiro. Sinais particulares: dois. Público: quatro. Convicções políticas: você deve estar brincando. Nascido em 1936, na Beneficência Portuguesa, Porto Alegre. Conta a lenda que no mesmo dia, hora e local, nascia o Tobias Caldas, o que desperta a interessante hipótese de ter havido uma troca de... Não. Impossível. Em 1957 vai morar na Espanha mas não encontra adversários na sua especialidade: colherada de mingau a 50 jardas. No retorno não chega a Paris, onde pronuncia sua primeira palavra — “Mater” — em sessão plenária da Academia Francesa. Em 1969 é preso em Macau por tráfico de pandas, biguás e porte de chocalho sem licença. Deportado para o Brasil. Em 1970, a conselho médico e sob terrível pressão familiar, abandona o hábito da chupeta mas é obrigado a se internar, para recuperação emocional, num sanatório suíço onde compõe a Sinfonia Inacabada (“minha obra mais completa”, dirá mais tarde). Alfabetizado por dona Lyba Knijnik, que carrega até hoje essa culpa na consciência. Autor de, entre outros, “O Vermelho e o Negro”, “Os Sertões”, uma versão musicada, de “Das Kapital”, com Marlene Dietrich e a famosa frase, mundialmente consagrada: “A bolsa ou a vida”, pela qual até hoje recebe royalties.

Em 54, forma com Paulinho e Odorico na linha média do Internacional. Quem nunca foi um salvador em sonho? Hoje é Bráulio da imaginação, incoerente e autoenfastiado, capaz de mil piruetas e promessas na boca da área mas avesso ao choque, ao chute e às definições. E para sempre barrado. O decantado apetite do cronista não passa de um mito: todos sabem que ele não pode ver um prato de comida em sua frente. Sua religião é o panteísmo moderado, sem flauta. Acredita numa força geradora, invisível e mal definida, a que os antigos davam o nome de CEEE. Leu “O Pequeno Príncipe” e se arrependeu. Só bebe Johnny Walker Black Label, o que quer dizer que bebe muito pouco. Casado com Rosana Schiaffino, com quem teve quatro filhos: Athos, Portos, Aramis, Édipo — olho nele! — e Tupi. Aliás, Aramis é o cachorro. Três filhos.

Esqueci algum detalhe? Ah, sim. As coincidências. Estreio na “Folha da Manhã” junto com o Luis Carlos Merten — que conheço pouco e admiro muito — um dia depois da saída do Jefferson Barros, que estimo e admiro em proporções iguais. Tomara que tenha deixado um pouco do seu gênio pairando por aqui. E foi na Caldas Júnior, se não me engano, que meu pai foi publicado pela primeira vez. (Vocês conhecem meu pai, Erich Maria Remarque?). Vejam onde vim parar.

* Primeira das mais de 550 crônicas de LFV publicadas na página 4 e depois na 6 da Folha da Manhã, entre 1º/05/1970 e 24/10/1975.