Existem cidades irreais ou verdadeiras que foram feitas para serem tema de autores filhos da terra. Cidades que foram destinadas a serem lembradas como gênese de humanidades. Recordadas por autores embebidos nos sumos e seivas da terra e do povo que as constituem.
Cidadezinhas que Manoelito chama de “Povoações de nomes sonoros e morta fisionomia”, no seu livro “Máscaras e murais de minha terra”, 1966, p 116. Lembro-me de Macondo/Aracataca do Garcia Marquez (1927-2014) atravessando os “Cem anos de solidão”. Lembro Itaqui, cidade entre os rios Uruguai, Butuí, Cambaí, Itu, de campos e pastoreios e vida rude ligada ao primitivo dos tratos da criação.
Itaqui, ao mesmo tempo cidade refinada com seus almirantes da marinha, seus estancieiros enriquecidos vivendo nos casarões solarengos com pratas e cristais da Europa e fumos e perfumes de Buenos Aires. Cidade pequena, é verdade, mas com um teatro de nome polonês, Prezewodoski, que trazia companhias italianas e argentinas para o deleite do público feminino requintado. Cidade com muita História e histórias que seus pajadores missioneiros cantam em festas e bolichos, carreiras, entreveros, revoluções, guerras. Contos passados adiante nas rodas de cadeiras ao entardecer diante das casas velhas.
Itaqui encontrou em Manoelito de Ornellas o seu cantor preferencial, não só em poesia – iniciou com o livro de poemas “Rodeio de estrelas”, de 1928. Nele, desde a estância do Rincão da Cruz, via o céu estrelado como um grande campo repontado por um rodeio de luzes: “De cada canto do céu – o campo enorme – / Muitas pontas de estrelas aparecem...”.
Era como se o poeta imaginasse o mundo e o universo a partir de um ponto pequeno da terra, e o reproduzisse no céu. A partir desta visão de mundo o escritor expandiu seu conhecimento para a história e os costumes de sua região, depois para a América, e, sem limites e cercas, para a abertura das cancelas da cultura universal. Sempre sem esquecer o seu lugar de origem, o lugar da terra que o viu crescer campeiro no fundo das invernadas.
Nasceu Manoelito de Ornelas em Itaqui em 1903, fruto de um casamento entre um descendente de portugueses da ilha da Madeira e uma uruguaia de família italiana, Guglielmi. Seu avô tinha comprado terras no município de Itaqui e aí se estabeleceram. No seu livro de memórias e crônicas sobre a cidade, “Terra xucra”, de 1969, o autor conta o seu tempo de meninice e formação, tempos de alegria e de perdas.
Quando por negócios nebulosos do seu pai, um opositor ferrenho do Borges de Medeiros, a família é jogada na pobreza, primeiro numa casinha no Cerro, depois, quando o pai arranja um trabalho no interior de uma estância para atender uma loja de comércio, numa casa de interior: “Descemos estremunhados, à frente da casa pequenina e humilde, e que seria por longo tempo, o nosso mundo. O teto era baixo. Algumas peças da casa com piso de tijolos. Poucos quartos com assoalho de madeira. As telhas apareciam no cimo e as frestas de luz desciam do teto, zebrando a sombra no chão.” (p.51).
Foi crescido à beira do fogo de chão dos galpões de estância, ouvindo as conversas e histórias contadas pelos trabalhadores do campo. Torna-se ele também peão desde cedo para ajudar a família até tornar-se estancieiro aos 14 anos de idade quando o avô transfere para ele a responsabilidade da pequena terra que tinha.
Não podemos esquecer, no entanto, que em meio às lides campeiras o menino tem seu tempo de estudo, primeiro em Santa Maria, no colégio do mesmo nome dos irmãos maristas onde encontra mestres que o estimulam – aqui não posso deixar de citar que também estudei no colégio Santa Maria e fui aluno do inesquecível irmão Quintino, que havia recebido 40 anos antes Manoelito de Ornellas e o introduzido no meio dos seus novos camaradas. No meu tempo, o irmão Quintino era um sábio de cabelos brancos tido por todos como um santinho, que lia para mim as cartas das irmãs saudosas que havia deixado na França há mais de meio século e nunca mais as vira.
Despertara Manoelito para o estudo e a poesia, tendo tido a ajuda de importantes figuras intelectuais – talvez uma das mais importantes tenha sido a figura do pernambucano Silvio Júlio, que saído do Rio de Janeiro por problemas políticos, ainda muito jovem tornou-se professor no interior do município de Itaqui na escola fundada pelo pai de Manoelito.
Silvio Júlio mesmo era um intelectual de grande alçada, sendo, conforme depoimento do Manoelito, um dos maiores conhecedores da literatura da América Latina e da Espanha, com uma biblioteca de mais de 2.000 livros que pôs à disposição do seu aluno. Silvio Júlio (1895-1984), autor das “Achegas peruanas”, 1983, que nos seus tempos de Itaqui havia se tornado um gaúcho igual aos do meio em que vivia, é autor que mereceria maiores estudos dos autores rio-grandenses.
Vindo dessas experiências de estudos e de vida, torna-se estudioso da nossa história e costumes, não cabendo aqui falar de todos os seus trabalhos; devemos apontar alguns de seus importantes livros no assunto, como Gaúchos e beduínos, 1948. Traça neste livro todo um abrangente estudo comparativo da influência árabe na Espanha e, por tabela, na zona do rio da Prata na formação do gaúcho.
Outro tema seu muito interessante é o tratado no “Máscaras e murais da minha terra”, (pp. 113-131) onde esmiuça a importância e origem do termo maragato desde o Egito, levado pelos berberes para a Espanha e depois trazido para o Uruguai. Não é de espantar, pois, o contingente maragato das hostes de Gumercindo Saraiva na revolução de 1893.